Cristianismo e comunismo: irmãos siameses? — por Nezimar Borges

O editor do DMM Nezimar Borges escreve sobre pretexto criado pelo presidente Jair Bolsonaro para justificar cruzada ideológica contra o conhecimento e inclusão social: a demonização do comunismo. Como tantos, Borges se escora no esteio eternizado pela escritora e socialista revolucionária, Rosa Luxemburgo, para afirmar que tanto o comunismo quanto o cristianismo foram criados e alimentados para combater o mesmo inimigo: a desigualdade social. “De fato, Cristianismo e comunismo são os dois lados da mesma moeda, visto que, enquanto o primeiro deseja a utopia da igualdade efetiva através de Deus, pela conversão religiosa; o segundo utiliza da ferramenta do marxismo ao vislumbre utópico da igualdade plena através da revolução social”; leia


Cristianismo e comunismo: irmãos siameses? — por Nezimar Borges

O discurso do atual presidente da república Jair Bolsonaro, cuja retórica acentuou depois de sua posse, contra processo de diminuição da desigualdade social startado a partir de 2003 — de menosprezo ao conhecimento e à política de inclusão social —, tem amparo na carcomida ideologia da velha direita brasileira: a demonização do comunismo a fim de solidificar narrativa e perpetuar-se no poder. Exemplo evidente recai sobre a insistência de o presidente em sucatear a Universidade pública – atacando o que seria, para ele, “antro de esquerdistas” e fonte do “marxismo cultural”; em uma rede social, divulgou vídeo que o declara escolhido por Deus para governar o Brasil, assim como fora Ciro, o grande, para a Pérsia antiga, em Isaías 45.

Bolsonaro talvez não saiba o caráter comunista das raízes do Cristianismo, visto que as primeiras comunidades cristãs viviam em um comunismo primitivo que faz, quiçá, inveja àquele militante da esquerda tradicional.

O livro sagrado traz duas passagens da vida comunista dos primeiros cristãos, em Atos dos Apóstolos 2:42-47 e 4:32-35: “Todos os que tinham abraçado a fé reuniam-se e punham tudo em comum: vendiam suas propriedades e bens, e dividiam-nos entre todos, segundo as necessidades de cada um. A multidão dos que haviam crido era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía, mas tudo entre eles era comum. (...) Não havia entre eles necessitado algum. De fato, os que possuíam terrenos ou casas, vendendo-os, traziam os valores das vendas e os depunham aos pés dos apóstolos. Distribuía-se, então, a cada um, segundo sua necessidade”

Destaca-se a vida comunista dos primeiros cristãos, segundo a necessidade de cada um em comunidade; mas o que poderia ocorrer àquele que traísse ou fraudasse tais regras do comunismo cristão?

Veja em Atos 5 a resposta: “Um certo homem chamado Ananias, com sua esposa Safira, também vendeu uma propriedade. Mas ele reteve parte do dinheiro da venda para si, tendo conhecimento disso também sua esposa. Ele levou a parte restante e a depositou aos pés dos apóstolos. Então, indagou-lhe Pedro: “Ananias, por que permitistes que Satanás encheste o teu coração, induzindo-te a mentir ao Espírito Santo para que ficasses com parte do valor do terreno? Mantendo-o contigo, porventura não continuaria teu? E vendido, não estaria todo o dinheiro em teu poder? Como pudestes permitir que tais ideias dominassem tua vontade? Ao ouvir esta admoestação, Ananias caiu morto”.

A citação extensa solapa acusação do suposto cristão, a de que o trecho poderia ser retirado do contexto; concomitantemente, fulmina também denúncia de pseudo comunista, aquele que desdenha da versão bíblica, como quimera que não deva ser levado à sério. Está no livro sagrado e pode bastar ao verdadeiro seguidor cristão.

A socialista, judia e revolucionária polaca Rosa Luxemburgo, assassinada pela milícia alemã de extrema direita - em 1919 -, traz em seu livro de 1905 “O Socialismo e as Igrejas” a exaltação do comunismo dos primeiros cristãos. Ela cita o bispo católico São João Crisóstomo, vivente do século IV, que dedicou a vida ao propósito de Cristo. "E havia uma grande caridade entre eles (os Apóstolos); ninguém era pobre entre eles. Ninguém considerava como seu o que lhe pertencia, todas as suas riquezas estavam em comum... uma caridade existia em todos eles. Esta caridade consistia em que não havia pobre entre eles, de tal modo que os tinham bens apressavam-se a desprender-se deles. Não dividiam as suas fortunas em duas partes, dando uma e guardando a outra; davam o que tinham. Assim não havia desigualdade entre eles. Todos viviam em grande abundancia (...)”

Percebem-se nos ideais dos primeiros cristãos a preocupação com a vida confortável do outro, embora emprenhado de simbolismos religiosos; no entanto, não havia entre eles a compreensão do processo político, social e os meios de produção, mais pela ausência desse último do que pelos conflitos entre os dois primeiros com a matriz romana. Atualmente, o processo de mudança de paradigma social passa pela compreensão de se aliar teoria com a prática; ou seja, todo movimento social, na busca pela transformação da sociedade, somente é possível consolidar-se bebendo na fonte de uma boa base teórica científica. Ocorreu com a Revolução Industrial – através da teórica de Adam Smith, Jean-Baptiste Say e Malthus;  do mesmo modo, a Revolução Russa de 1917 – teorizada nos manuscritos de Marx e Engels ; ou a conciliação de teoria à prática conduziu à Revolução Francesa (revolução capitalista tida e havida como a mãe de todas as revoluções) teve o Iluminismo como base teórica, se alimentava nos livros de Diderot, Locke, Montesquieu, Voltaire e Rousseau.

Voltando aos manuscritos de Rosa Luxemburgo, ela traz à baila o anúncio de São Basílio, do Século IV depois de Cristo, que pregou assim contra os ricos: "Miseráveis, como vos ireis justificar diante do Juiz do Céu? Vós dizeis-me: ‘Qual é a nossa falta, quando guardamos o que nos pertence?’ eu pergunto-vos: ‘Como é que arranjastes isso a que chamais de vossa propriedade? Como é que os possuidores se tornam ricos, senão tomando posse das coisas que pertence a todos? Se todos tomassem apenas o que estritamente necessitam, deixando o resto aos outros, não haveria nem ricos nem pobres”.

Luxemburgo destaca também o evangelho de São Gregório Magno, O grande, que viveu no século VI depois de Cristo. "Não é, de modo algum, bastante não roubar a propriedade dos outros; é errado conservar para si próprio a riqueza que Deus criou para todos. Aquele que não dá aos outros o que possui é um assassino; quando guarda para seu próprio uso o que proveria os pobres, pode dizer-se que está a matar os que podiam ter vivido da sua abundância; quando repartimos com os que estão sofrendo, nós não damos o que nos pertence, mas o que lhes pertence. Isto não é um ato de misericórdia, mas o pagamento de uma dívida".

Diante de tais exemplos do comunismo raiz, Rosa Luxemburgo revela sua incompreensão à maneira como se comportavam os religiosos de sua época, os quais sonegavam o conhecimento da tradição e da prescrição das origens do Cristianismo, à qual se constata a realidade afinadíssima aos dias atuais. “O clero atira-se violentamente contra os socialistas democratas, exorta os trabalhadores a não se revoltarem contra os dominadores, mas a submeter-se à opressão deste governo que mata o povo indefeso, que manda para a monstruosa carnificina da [1ª] guerra [mundial] milhões de trabalhadores”.

Palavras da comunista Rosa Luxemburgo poderiam ser escritas ao Brasil da era bolsonarista, quando maioria dos padres e pastores apoiam políticas de destruição da classe trabalhadora, proporcionada pelo presidente Jair Bolsonaro que deseja armar a população e ir à guerra contra a Venezuela, mas não consegue ir às vias de fato, mais por falta de apoio da elite burguesa do que vontade própria.

Continua Rosa em O Socialismo e as Igrejas.  “Assim, o clero, que se torna o porta-voz dos ricos, o defensor da exploração e opressão, põe-se a si próprio em flagrante contradição com a doutrina cristã. Os bispos e os padres não são os propagadores dos ensinamentos cristãos, mas os adoradores do Bezerro de Ouro e do chicote que açoita os pobres e indefesos”.

No Brasil quase tomado pela iniquidade, indigência e ignorância, Luxemburgo certamente apontaria tais escritos aos religiosos do neopentecostalismo tupiniquim, aos malafaias, felicianos e macedos, pastores que arrebanham milhões de seguidores contra os ensinamentos comunistas dos primeiros cristãos, segundo esta argumentação, são traidores da palavra de Cristo; interpretemos, por exemplo, o “evangelho” de Edir Macedo: “Vamos agora honrar a Deus com as ofertas e dízimo que você quiser oferecer a Deus o melhor por favor...[palmas...] não, não, não vale. Você tem que bater a mão no bolso e não na outra mão”. Em outra ocasião, revela outra contradição com os ensinamentos cristãos. “Não me deu dinheiro vai pro inferno! Se não dá dinheiro que se dane. Ou dá ou desce”, ameaça. “Eu quero dinheiro, dinheiro, muuuuito dinheiro”, confessou publicamente.

Outro pastor neopentecostalista, Silas Malafaia, faz campanha para pedir dinheiro do aluguel dos pobres fiéis condicionado à nova benção. “Durante todo esse ano é você quem vai fazer conforme quiser. Em um envelope especial você vai oferecer um aluguel seu. Pega esse aluguel, de abril a dezembro e divide. Por exemplo: ‘eu pago R$ 500 de aluguel. Eu vou oferecer uma semente de um aluguel para que o Senhor possa abrir as portas para que eu tenha uma casa própria’. Então você pode pegar esses R$ 500 e dividir de abril a dezembro. Uma vez você dá R$ 50, outro mês dá R$ 30. Você quem vai dizer, mas vai colocar em um envelope especial”.

Poucos os religiosos não traíram a ideia central e original do Cristianismo, explica Luxemburgo. Há sacerdotes de outra espécie, alguns que estão cheios de bondade e misericórdia e que não procuram lucros; estes estão sempre prontos a ajudar os pobres. Mas ela admite que são, sem dúvida, raros.
A constatação de Rosa está visivelmente associada a um verdadeiro cristão brasileiro, Dom Hélder Câmara, seu exemplo de vida perdura à reflexão de todos, quando disse. “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista”.

No mesmo diapasão de Hélder Câmara, o Papa Francisco evidencia a convergência de propósitos dos comunistas e verdadeiros cristãos; ele igualou os pensamentos de um e de outro, ao dizer: “São os comunistas os que pensam como os cristãos. Cristo falou de uma sociedade onde os pobres, os frágeis e os excluídos sejam os que decidam. Não os demagogos, mas o povo, os pobres, os que têm fé em Deus ou não, mas são eles a quem temos que ajudar a obter a igualdade e a liberdade”.

De fato, Cristianismo e comunismo são os dois lados da mesma moeda, visto que, enquanto o primeiro deseja a utopia da igualdade efetiva através de Deus, pela conversão religiosa; o segundo utiliza da ferramenta do marxismo ao vislumbre utópico da igualdade plena através da revolução social. Diante destas reflexões, pode se dizer-lhes com cem por cento de certeza: o inimigo fundamental tanto de comunistas quanto dos verdadeiros cristãos é efetivamente o falso cristão! Os individualistas, gananciosos e egoístas são eles que se movimentam com capacidade de influenciar rituais religiosos e utilizam do expediente poderoso da religião institucionalizada para influenciar, sobretudo, politicamente, nos desígnios das decisões do Estado.

Avoco novamente as palavras de Luxemburgo para entrelaçar argumentos sobre os falsos cristãos com as falácias dos dias atuais: “Os servos da Igreja trazem ao povo apenas palavras de humilhação e desencorajamento. E, se Cristo aparecesse hoje na terra, atacaria com certeza os padres, os bispos e pastores que defendem os ricos e vivem explorando os desafortunados, como outrora atacou os comerciantes que expulsou do templo para que a presença ignóbil deles não maculasse a Casa de Deus”.

Interessante verificar a capacidade intelectual de Rosa Luxemburgo, não obstante uma comunista revolucionária, consegue captar o desejo do Jesus revolucionário para seu proposito de vida aos seus concidadãos em vida terrena.

A ação do Cristo vivo revela essência daquilo que pretende para seu povo na terra. Os pseudos  padres e falsos pastores pregam que os trabalhadores têm de sofrer (sofrer e sofrer uma vez mais) para ser dignos de salvação do outro lado da tumba. Com aquela ação revolucionária, Jesus deixa clarividente que a felicidade dos humildes pertence ao reino de Deus, todavia, também à vida de curta passagem pela terra. Nesse sentido, Rosa traz a baila outra reflexão interessante. “O clero, falsificando o primitivo ensinamento do Cristianismo que tinha por objetivo a felicidade terrena dos humildes, tenta hoje persuadir os trabalhadores de que o sofrimento e degradação que suportam não provem de uma estrutura social defeituosa, mas da vontade da providência dos céus”.

Karl Marx escreveu sobre o DNA do capitalista, para o alemão, indubitavelmente, a vontade do capitalista consiste em encher os bolsos, o mais que possa. E o que se tem de fazer não é analisar acerca da sua vontade, mas investigar o seu poder, os limites desse poder e o caráter desses limites. Ele crava: "O dinheiro é a essência alienada do trabalho e da existência do homem; a essência domina-o e ele adora-a".

Ao afirmar que o homem adora o dinheiro como se adora um deus, Marx utiliza paralelo com processo de culto na religião cristã, que tem um Deus e o capital seria um falso divino adorado pelos capitalistas. Mais tarde, o judeu-alemão Walter Benjamin explorou a porta aberta por Marx, em livro de edição atual do franco-brasileiro Michael Löwy O capitalismo como religião: “O capitalismo é uma religião puramente de culto, desprovida de dogma e se desenvolveu como um parasita do cristianismo”.

Regresso à excelência dos escritos de Rosa Luxemburgo, a despeito da militância comunista, revela compreensão do processo de conscientização dos trabalhadores, ao afirmar que o socialista de modo algum combate os sentimentos religiosos. Ao contrário, diz ela, procura completa liberdade de consciência para todo o indivíduo e a mais ampla tolerância possível para qualquer fé e qualquer opinião. Porém, faz uma importante ressalva: Desde o momento que os padres usam púlpito como um meio de luta contra as classes trabalhadoras, os trabalhadores devem lutar contra os inimigos dos seus direitos e da sua libertação. “Porque o que defende os exploradores e o que ajuda a prolongar este regime presente de miséria, esse é que é o inimigo mortal do proletariado, quer esteja de batina ou de uniforme de polícia”.

Cristianismo e comunismo foram paridos, portanto, para o mesmo fim: dinamitar as pontes que levam à desigualdade social. Nesse ponto, não será exagero um comunista ou um verdadeiro cristão protocolar no altar de culto ao Deus vivo, encíclica para que Cristãos e comunistas se deem as mãos em união, pois a consequência da batalha terrena não seria lhes comum? O comunista em destruir a desigualdade social para uma vida confortável neste mundo, conciliado aos propósitos do cristão verdadeiro, por que não?

Ou seria impossível chegar ao desejado mundo pleno da igualdade terrena por caminhos tão tortuosos e distintos?
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Cristianismo e comunismo: irmãos siameses? — por Nezimar Borges Cristianismo e comunismo: irmãos siameses? — por Nezimar Borges Reviewed by DMM on domingo, junho 09, 2019 Rating: 5

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