Áudios vazados mostram crimes cometidos por Sérgio Moro e Dallagnol contra Lula e o PT

Ex-juiz, que concentrava as decisões referentes à Operação Lava Jato, e deveria se mostrar distante e imparcial sobre os fatos, aparece em mensagens instruindo, aconselhando e dando pistas ao procurador Deltan Dallagnol, atuando como auxiliar da acusação; "Não é muito tempo sem operação?", chegou a questionar, de acordo com reportagem exclusiva do site The Intercept


Como juiz federal da 13ª Vara da Justiça Federal do Paraná, Sergio Moro, que concentrava as decisões referentes à Operação Lava Jato nos últimos anos e deveria se mostrar distante e imparcial sobre os fatos, na verdade instruiu, aconselhou e deu pistas ao procurador Deltan Dallagnol.

Em mensagens privadas trocadas entre Moro e os procuradores publicadas pelo site The Intercept neste domingo 9, Moro atua, na prática, como auxiliar da acusação. "Não é muito tempo sem operação?", chegou a questionar. Ele também sugeriu trocar a ordem de fases da Lava Jato e antecipou ao menos uma decisão. Confira um trecho da matéria:

“Talvez fosse o caso de inverter a ordem da duas planejadas”, sugeriu Moro a Dallagnol, falando sobre fases da investigação. “Não é muito tempo sem operação?”, questionou o atual ministro da Justiça de Jair Bolsonaro após um mês sem que a força-tarefa fosse às ruas. “Não pode cometer esse tipo de erro agora”, repreendeu, se referindo ao que considerou uma falha da Polícia Federal. “Aparentemente a pessoa estaria disposta a prestar a informação. Estou entao repassando. A fonte é seria”, sugeriu, indicando um caminho para a investigação. “Deveriamos rebater oficialmente?”, perguntou, no plural, em resposta a ataques do Partido dos Trabalhadores contra a Lava Jato.

Nem Dallagnol acreditava nas provas contra Lula

Deltan Dallagnol acusou o ex-presidente Lula sem acreditar na consistência das provas apresentadas na denúncia. "Falarão que estamos acusando com base em notícia de jornal e indícios frágeis... então é um item que é bom que esteja bem amarrado. Fora esse item, até agora tenho receio da ligação entre petrobras e o enriquecimento, e depois que me falaram to com receio da história do apto... São pontos em que temos que ter as respostas ajustadas e na ponta da língua", escreveu o procurador Deltan Dallagnol, quatro dias antes de apresentar uma denúncia contra Lula que o acusa de receber reformas no triplex como propina da Petrobrás.

Lula foi preso em abril de 2018, quando liderava todas as pesquisas sobre sucessão presidencial, e desde então vem sendo mantido como preso político. Em sua coluna deste domingo, o jornalista Elio Gaspari confirma que Lula está sendo perseguido pelo Poder Judiciário no Brasil (leia aqui).

Confira, abaixo, trecho da reportagem do Intercept:

Faltavam apenas quatro dias para que a denúncia que levaria o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à prisão fosse apresentada, mas o coordenador da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba tinha dúvidas sobre a solidez da história que contaria ao juiz Sergio Moro. A apreensão de Deltan Dallagnol, que, junto com outros 13 procuradores, revirava a vida do ex-presidente havia quase um ano, não se devia a uma questão banal. Ele estava inseguro justamente sobre o ponto central da acusação que seria assinada por ele e seus colegas: que Lula havia recebido de presente um apartamento triplex na praia do Guarujá após favorecer a empreiteira OAS em contratos com a Petrobras.

As conversas fazem parte de um lote de arquivos secretos enviados ao Intercept por uma fonte anônima há algumas semanas (bem antes da notícia da invasão do celular do ministro Moro, divulgada nesta semana, na qual o ministro afirmou que não houve "captação de conteúdo"). O único papel do Intercept foi receber o material da fonte, que nos informou que já havia obtido todas as informações e estava ansioso para repassá-las a jornalistas. A declaração conjunta dos editores do The Intercept e do Intercept Brasil (clique para ler o texto completo) explica os critérios editoriais usados para publicar esses materiais, incluindo nosso método para trabalhar com a fonte anônima.

No dia 9 de setembro de 2016, precisamente às 21h36 daquela sexta-feira, Deltan Dallagnol enviou uma mensagem a um grupo batizado de Incendiários ROJ, formado pelos procuradores que trabalhavam no caso.

Ele digitou: "Falarão que estamos acusando com base em notícia de jornal e indícios frágeis... então é um item que é bom que esteja bem amarrado. Fora esse item, até agora tenho receio da ligação entre petrobras e o enriquecimento, e depois que me falaram to com receio da história do apto... São pontos em que temos que ter as respostas ajustadas e na ponta da língua".

As matérias de jornais a que o procurador se referiu são as dezenas citadas na peça de acusação. Dallagnol fazia sua última leitura da denúncia e debatia o texto com o grupo, analisando ponto a ponto cada item que seria oferecido à 13ª vara de Curitiba, onde Sergio Moro atuava como juiz.

Naquele dia, ninguém respondeu à dúvida de Dallagnol: se o apartamento triplex poderia ser apontado como propina para Lula nos casos de corrupção na Petrobras. O documento seria anunciado ao público, com direito a um hoje famoso PowerPoint, dali a poucos dias.

Sem essa ligação, o caso não poderia ser tocado em Curitiba, onde apenas ações relacionadas à empresa eram objeto de investigação. A ligação do apartamento com a corrupção na petrolífera tinha gerado uma guerra jurídica nos primeiros meses daquele 2016. De um lado, o Ministério Público do Estado de São Paulo. Do outro, a força-tarefa de Curitiba.

Caso o caso ficasse em São Paulo, não seria julgado por Sergio Moro, o atual ministro da Justiça de Jair Bolsonaro e ex-juiz que ajudou coordenar a operação quando era o encarregado pela 13ª Vara Federal de Curitiba, como mostram diálogos revelados pelo Intercept.

Com informações do Brasil/247 e The Intercept
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