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A encenação da violência como arma política – por Nezimar Borges.

A encenação da violência como ferramenta de adensamento político será eventualmente utilizada no processo de acirramento nas disputas pelo poder. Quem avalia é o editor do DMM, jornalista Nezimar Borges. Para Borges, a “utilização da violência como ferramenta de mobilização política remete às sociedades mais antigas e - desde quando o homem sentiu a necessidade de garimpar votos e apoio das massas para fins políticos inconfessáveis”. Borges observa os dez golpes de Estado no Brasil para associar ao momento político brasileiro, entre eles, “o golpe jurídico-midiático-parlamentear de 17 de abril de 2016, recentemente subverteu a ordem constitucional do estado democrático de direito, ao suprimir vontade popular de mais 54 milhões de votos, e cassou sem crime de responsabilidade a presidenta honesta, Dilma Rousseff e mantém até os dias de hoje a prisão política do ex-presidente Lula, condenado por ”atos de ofício indeterminados”, para não concorrer na eleição em que venceria facilmente e em primeiro turno”. Ele lembra o “atentado” da rua Toneleiro, no Rio, “não passa incólume o amadorismo dos autores do suposto crime da rua Toneleiro, que deixaram pistas evidentes para as investigações apontarem imediatamente ao governo de Getúlio Vargas. Teria sido intencional?” E emenda: “À época do acirrado processo da luta pelo poder, a resposta para esta questão não parecia trivial, contudo, naquele momento certamente os nacionalistas brasileiros tiveram uma certeza evidente até para o universo mineral: o “atentado” não seria o primeiro, muito menos haveria de ser o último.”


A encenação da violência como arma política – por Nezimar Borges

A utilização da violência como ferramenta de mobilização política remete às sociedades mais antigas e - desde quando o homem sentiu a necessidade de garimpar votos e apoio das massas para fins políticos inconfessáveis - tem merecido destaque no decorrer do tempo, com utilização das tintas carregadas aos casos com ampla repercussão junto ao público.

Na Roma antiga, a distensão entre os governos e a população, anteriores a era do imperador Flaviano, forçou o império a partir para políticas de amenização dos conflitos entre o povo e o governante, com objetivos claros: diminuir a pressão por demandas sociais.

Para este desvio de atenção do público, o imperador Flaviano teve a brilhante ideia da construção de um grande centro de reunião de pessoas; saiu daí para o papel e anos depois foi concluído a construção do Coliseu, estádio do mundo antigo, uma obra bem sucedida para sua finalidade - unir o útil ao agradável - desviar atenção da população sobre os graves problema de gestão do governo e dar às massas gostosa emoção diante da dureza da vida cotidiana, através de uma política bem sucedida caracterizada de “pão e circo”.

Ali foram iniciados os primeiros eventos com grandes aglomerações de pessoas, que chegavam aos patamares de até 80 mil em dias de datas comemorativas. A dimensão do público era invejável levando em consideração as “metrópoles” daquela época. Sem jornais ou tvs, ou rádios, o público se deliciava com a violência no Coliseu, quando condenados pelo sistema romano lutavam em pares num jogo de vida ou de morte, pela liberdade.

Com o advento do rádio, a busca pelo sensacional deu a tônica para atrair o público a qualquer custo, com uso frequentes de efeitos do sensacionalismo violento capazes de causar impacto, de chocar a opinião pública, sem que haja qualquer preocupação com a verdade.

O caso Orson Welles sobre a “Guerra dos mundos” é exemplo histórico — nos idos de 1938, através de uma radionovela pelas ondas da rádio CBS americana —  impressionou milhões de cidadãos, que ficaram em estado de pânico em decorrência da “notícia” de que naves extraterrestres haviam iniciado um ataque violento ao planeta terra. Wells resumiu esta alienação do público quando disse que muitas pessoas são bastante educadas para não falar com a boca cheia, porém não se preocupam em fazê-lo com a cabeça oca.

No Brasil há inúmeros casos da utilização da violência política para mudar o norte da história, com claros objetivos de atender os interesses da elite dominante, em que golpes de estado são a regra, em detrimento da  democracia, a exceção.

A elite burguesa brasileira é vista com diploma de especialista ou doutorado em vestir a pele de cordeiro em lobo, se não vejamos: Se golpe de Estado é caracterizado pela subversão da ordem institucional, portanto, de fato, o país passou mais tempo governado por regimes antidemocráticos, alheio à vontade popular desde período de 1822 até os dias atuais.

Nesse intervalo, observo pelo menos dez golpes de Estado no Brasil. Entre eles: A dissolução da Assembleia Constituinte de 1823; golpe da Maioridade, de 1840; golpe de 3 de novembro de 1891; o golpe de Floriano Peixoto; revolução de 1930; “Estado Novo”, de 1937; a deposição de Getúlio Vargas, em 1945 e o golpe do primeiro de abril  de 1964, dia da mentira.

O golpe jurídico-midiático-parlamentear de 17 de abril de 2016, recentemente subverteu a ordem constitucional do estado democrático de direito, ao suprimir vontade popular de mais de 54 milhões de votos, e cassou sem crime de responsabilidade a presidenta honesta, Dilma Rousseff e mantém até os dias de hoje a prisão política do ex-presidente Lula, condenado por ”atos de ofício indeterminados”, para não concorrer na eleição em que venceria facilmente e em primeiro turno.

Afora as rupturas institucionais evidentes e catalogadas pela história, existe os casos considerados semi-golpes políticos. Um deles teve repercussão impressionante no momento da acirrada disputa política.

O caso do suposto atentado da rua Toneleiro, no Rio de Janeiro em 1954, tem importância histórica para o país, por se tornar de fato o evento que constituiu o marco da queda do presidente Getúlio Vargas, que culminou com o seu suicídio, três semanas depois. Caso salta aos olhos por se assemelhar ao golpe de 2016, por estruturar triângulo golpista entre parte do Judiciário, meios de comunicação e políticos corruptos – a senha ao golpe evidentemente em todos os casos é o combate à corrupção.

Um dos principais inimigos do presidente Vargas, o jornalista dono do então famoso jornal Tribuna da imprensa, Carlos Lacerda – o corvo - dizia que tinha sido por diversas vezes ameaçado de morte. Diante deste ambiente provavelmente hostil, um grupo de simpatizantes e oficiais de Aeronáutica decidiu dar-lhe segurança pessoal durante seus comícios.

Segundo consta na literatura do golpismo tupiniquim – considerado uma jaboticaba brasileira – Lacerda deu realmente um tiro no pé direito. Ocorreu depois de um comício realizado na noite de 4 de agosto de 1954, o político conservador volta para casa acompanhado do filho de 15 anos, no automóvel de militar da reserva. Ao chegar na rua Tonelero, eles saem do veículo e, ao se despedirem, uma pessoa provavelmente surge das sombras e dispara alguns tiros.

Não passa incólume o amadorismo dos autores do suposto crime da rua Toneleiro, que deixaram pistas evidentes para as investigações apontarem imediatamente ao governo de Getúlio Vargas. Teria sido intencional?  À época do acirrado processo da luta pelo poder, a resposta para esta questão não parecia trivial, contudo, naquele momento certamente os nacionalistas brasileiros tiveram uma certeza evidente até para o universo mineral: o “atentado” não seria o primeiro, muito menos haveria de ser o último.
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A encenação da violência como arma política – por Nezimar Borges. A encenação da violência como arma política – por Nezimar Borges. Reviewed by Nezimar Borges/ Ana Maria Marat on sexta-feira, setembro 07, 2018 Rating: 5

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