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Causas socioculturais do feminicídio – por Nezimar Borges

No último domingo (12/08), população macapaense foi surpreendida por crime bárbaro de feminicídio, o caso chamou atenção das pessoas por envolver casal de policiais militares. Ele mata a companheira a tiros. “Os maiores índices do crime de feminicídio ocorrem em nações atrasadas, culturalmente arraigadas a rituais transcendentais, em certa medida, tem alguma relação especial com religião, pois em países que têm população bastante religiosa há maior tendência ao machismo e, por consequência, pode levar a este tipo de crime.” Quem avalia é o editor do DMM, jornalista Nezimar Borges. Para Borges, o “viés cultural, somado a outras marcadas pela desigualdade de poder entre os gêneros, por construções histórico-políticos e socioeconômicas discriminatórias, entra na sopa final, através do preparo do tempero que engrossa o caldo que fará ela vítima do feminicídio. Borges lembra: “As mulheres tiveram dois aliados importantes (...) Lula e Dilma Rousseff. O primeiro, enviou ao Congresso Nacional a Lei 11.340/2006, conhecida Lei Maria da Penha, cuja sanção salva todos os dias milhares delas da morte, (...); a segunda, sancionou a Lei do Feminicídio, Lei nº 13.104/2015, arcabouços jurídicos que, felizmente, contribuem paulatinamente para a mudança cultural no que concerne à valorização da mulher brasileira.”


Causas socioculturais do feminicídio – por Nezimar Borges

No último domingo (12/08), dia dos pais, parcela da população de Macapá foi tomada pela notícia de crime de feminicídio que abalou opinião pública e causou consternação, revolta e tristeza. O caso chamou atenção em decorrência de ser o autor agente do Estado, embora, em tese, insuspeito, teria o controle psicoemocional diante de situações extremas, de máxima tensão, no entanto, policial militar mata companheira também policial militar, de forma bestial, cruel e sem dar à vítima qualquer chance de defesa.

Trata-se de mais um caso entre inúmeros que ocorrem no interior da sociedade, destaca-se por ser o autor do crime hediondo um policial possivelmente contrariado diante de iminente separação, o qual fora supostamente estável por cerca de dois anos. Ele mata a companheira com três tiros certeiros.

Após o crime, pelas peculiaridades do caso, a repercussão principalmente nas redes sociais tomou atenção das pessoas em questão de minutos, medida através de cliques frenéticos, tal qual a gravidade do feminicídio em feedback com primeira matéria publicado pelo DMM, imediatamente após a tragédia, ainda no domingo à noite (12/08).

Alheio às estatísticas, ou distante dos inúmeros casos que ocorrem todos os dias, a princípio, poderia se tratar equivocadamente de mais uma refrega entre casais que terminou em morte, sob a capa surrada do crime passional. O caso não será o último, nem entre casais policiais, tão menos entre casais anônimos. Aqui abre-se parênteses para causas inequívocas do feminicídio, a desigualdade de gênero entre masculino e feminino, iniquidade acentuada por fatores socioculturais, sobretudo religioso, que rebaixa a mulher ao estereotipo da objetificação ou coisificação.

Fenômeno não peculiar do Brasil, mas infelizmente os maiores índices do crime de feminicídio ocorrem em nações atrasadas, culturalmente arraigadas a rituais transcendentais, em certa medida, tem alguma relação especial com religião, pois em países que têm a população bastante religiosa há maior tendência ao machismo e, por consequência, pode levar a este tipo de crime.

Embora respeitado, o texto sagrado parece reforçar a misoginia e o desprezo pela valoração da mulher ao associá-la ao “pecado”; portanto, quer queira ou não este viés cultural somado a outras marcadas pela desigualdade de poder entre os gêneros, por construções histórico-políticos e socioeconômicas discriminatórias, entra na sopa final, através do preparo do tempero que engrossa o caldo que fará ela vítima do feminicídio.

A sociedade mercantil também reforça diminuição profissional da mulher no trato desigual de salários mesmo quando desempenha função equitativa ou qualitativa ao do homem; no seio familiar também há reforço à desigualdade, a mulher cuida exclusivamente da alcova e dos filhos, é mais um sintoma da desigualdade de gênero masculino e feminino que contribui para situação de vulnerabilidade dela nos círculos socioeconômico.

As consequências do feminicídio todavia não atingem tão somente o casal, além de destruir famílias, abala a moral da sociedade em casos de grande repercussão popular, como o caso específico do casal militar, pois perturba a Anima – a composição feminina da personalidade imanente a todos os seres humanos.

O temo feminicídio apareceu nos idos da década de setenta. Mas foi no início dos anos oitenta que um caso chamou atenção da opinião pública e chocou a sociedade brasileira, por ser o criminoso uma figura de intensa vida social e cultural. O cantor Waldemar Castilho não suportou separação e matou a tiros a ex-esposa, Liliane de Grammont, à época, recentemente separado dele havia três meses. Tese esgotada de crime passional ou violenta emoção não sensibilizou jurados e o cantor foi condenado a doze anos de prisão.

Recentemente, o caso da universitária Dineia Batista Rosa, de 25 anos, estrangulada e morta pelo ex, que não aceitou o fim do relacionamento, em 2017, causou tristeza e indignação em Mato Grosso. Ela havia rompido o namoro justamente por descobrir que o namorado já tinha matado a mulher. Infelizmente há quem resista ao termo – feminicídio – principalmente entre conservadores, talvez, pois, não se atém as estatísticas do crime, no qual mostra que a mulher tem 20 vezes mais chance de ser assassinada em casos de refrega decorrente de supostas traições ou ciúmes, aliás são 5 mil delas assassinadas pelos parceiros por ano no Brasil.

Um exemplo grotesco para facilitar compreensão didaticamente: imagine as vinte últimas tragédias entre casais cujo assassinatos se deu por ciúmes do cônjuge, por exemplo. Na prática se verifica que, dezenove delas são assassinadas, enquanto apenas um deles, somente um deles é morto pela companheira. Diante desta triste realidade estatística, convenhamos, há, de fato, algo distorcido nas relações e alguma medida de contenção precisa ser efetivamente realizada para que diminua este elevado índice de mulheres vítimas do feminicídio.

Nos 500 anos de brasilidade, as mulheres tiveram dois aliados importantes no combate à violência dentro e fora do lar: os ex-presidentes petistas, Lula e Dilma Rousseff. O primeiro, enviou ao Congresso Nacional a Lei 11.340/2006, conhecida Lei Maria da Penha, cuja sanção salva todos os dias milhares delas da morte, além de amenizar drasticamente casos de violência doméstica contra mulheres; a segunda, sancionou a Lei do Feminicídio, Lei nº 13.104/2015, arcabouços jurídicos que felizmente contribuem paulatinamente para a mudança cultural no que concerne à valorização da mulher brasileira.

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Causas socioculturais do feminicídio – por Nezimar Borges Causas socioculturais do feminicídio – por Nezimar Borges Reviewed by Nezimar Borges/ Ana Maria Marat on sexta-feira, agosto 17, 2018 Rating: 5

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