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Quem te viu quem te vê - por Chico Buarque

Chico Buarque é considerado um revolucionário que retratou de fato o sentimento feminino, principalmente por tirar a mulher do papel subalterno e elevá-la a patamar protagonista, muitas vezes superior ao do homem. "Quem te viu quem te vê" mostra a importância e emancipação desta mulher sobre a relação amorosa. Abaixo, áudio do programa "Chico Buarque Paratodos" que teve como tema esta canção, apresentado por Nezimar Borges, na Rádio Universitária FM.


Abaixo, trecho do trabalho de conclusão de Curso em Pós Graduação em Literatura da acadêmica Roberta Moura Cavalcante.


5.5. ANÁLISE DA CANÇÃO

Na década de 60 as mulheres eram descritas nas músicas de forma machista e preconceituosa. Um exemplo é o caso da Amélia, de Mario Lago e Ataulfo Alves, que era retratada como uma “mulher de verdade” porque não tinha a menor vaidade e a Emília, de Haroldo e Wilson Batista, uma moça prendada que sabia lavar e cozinha e ainda fazia um café como ninguém. Mas com Chico ocorreu o contrário, ele que veio dar voz a essas mulheres, foi a partir dele que passamos a ouvir os sentimentos femininos, seus desejos, suas angústias e o seu universo retratado de forma mais bela e menos preconceituosa. Esse início de feminismo na música deu-se em 1966, quando a pedido de uma mulher, Nara Leão, o letrista compôs “Com açúcar, com afeto”.

Com açúcar, com afeto
fiz seu doce predileto
pra você parar em casa
qual o quê
com seu terno mais bonito
você sai e não acredito
quando diz que não se atrasa

E é neste momento que Chico Buarque consegue ser trovador. Quando escreve sobre o “eu” feminino, seja assumindo uma postura feminina, seja declarando seu amor para a dama inacessível, ele está sendo altamente trovadoresco, mas ao mesmo tempo contemporâneo.
Na música que iremos analisar a seguir podemos perceber como o cantor consegue fazer essa relação entre o trovadorismo e a contemporaneidade, declarando todo o seu amor não correspondido pela dama desejada:

QUEM TE VIU, QUEM TE VÊ
Você era a mais bonita das cabrochas dessa ala
Você era a favorita onde eu era mestre-sala
Hoje a gente nem se fala, mas a festa continua
Suas noites são de gala, nosso samba ainda é na rua
Hoje o samba saiu lá lalaiá, procurando você
Quem te viu, quem te vê
Quem não a conhece não pode mais ver pra crer
Quem jamais esquece não pode reconhecer
Quando o samba começava você era a mais brilhante
E se a gente se cansava você só seguia a diante
Hoje a gente anda distante do calor do seu gingado
Você só dá chá dançante onde eu não sou convidado
O meu samba assim marcava na cadência os seus passos
O meu sonho se embalava no carinho dos seus braços
Hoje de teimoso eu passo bem em frente ao seu portão
Pra lembrar que sobra espaço no barraco e no cordão
Todo ano eu lhe fazia uma cabrocha de alta classe
De dourado eu lhe vestia pra que o povo admirasse
Eu não sei bem com certeza porque foi que um belo dia
Quem brincava de princesa acostumou na fantasia
Hoje eu vou sambar na pista, você vai de galeria
Quero que você me assista na mais fina companhia
Se você sentir saudade por favor não de na vista               
Bate  palma com vontade, faz de conta que é turista.

De acordo com MOISÉS (2008), para analisar um texto poético temos que percorrer algumas etapas. Primeiro, examinar a camada denotativa; segundo, examinar a camada conotativa; terceiro, assinalar as palavras-chave e, por último, interpretar essas palavras-chave e a atmosfera poética que elas constituem.

Na referida canção temos como palavras-chave “samba”, “cabrocha”, “mestre-sala”, “gala” e “rua”. O samba representa o amor do poeta; cabrocha exemplifica o estado de superioridade dela em relação a ele; “mestre-sala” indica a posição dele nesta sociedade “sambista”, e esta posição é inferior a dela; “gala” e “rua” representam a relação de oposição da vida dos dois, ou seja, ela vive no luxo (gala), enquanto ele permanece na pobreza (rua). E é neste contexto poético que toda a canção se desenrola.
Esta canção é um exemplo da Cantiga de Amor trovadoresca. O trovador declara seu amor a uma mulher inacessível tendo o seu desenrolar num palácio, ambiente de luxo. Buarque faz uma analogia com essa música. O letrista tem como ambiente os barracões das escolas de samba do Rio de Janeiro, lugar de luxo e fantasia para os moradores dos morros, uma vez que durante o carnaval essas pessoas têm as atenções da mídia e do público em geral voltadas para si, coisa que não acontece durante o resto do ano. Essa analogia é feita, também, na figura da mulher em destaque. Nas cantigas de amor trovadorescas, a mulher é uma nobre, já na música, essa nobreza é colocada através da palavra cabrocha, que significa “mulata jovem”, e nos morros do Rio, durante o carnaval, não existe figura mais nobre que a mulata.

Depois de fazer essa analogia do ambiente, o músico inicia a letra tecendo elogios sobre a mulher amada /“você era a mais bonita das cabrochas dessa ala”/, “você era a favorita onde eu era mestre-sala”/, esses elogios explicitam a admiração do poeta para com a amada.

No trecho /“Hoje a gente nem se fala mas a festa continua” / é relatada a separação que houve entre o casal, e em /“Suas noites são de gala, nosso samba ainda é na rua”/, trata-se mais uma vez, da oposição – nobreza x pobreza, presente na relação de ambos, já que hoje ela vive no luxo (gala) e ele na pobreza (rua).

No refrão / “Hoje o samba saiu lá lalaiá, procurando você/;
Quem te viu, Quem te vê/; Quem não a conhece não pode mais ver pra crer/;
Quem jamais esquece não pode reconhecer”/, o desejo de ainda tê-la é apresentado quando ele diz que o samba saiu à procura dela, esse samba nada mais é além o sentimento do poeta por sua amada que é feito em forma de música. E retrata também que ela agia de uma forma que não age mais, isso é demonstrado no verso do refrão que também é o título da música: “Quem te viu, quem te vê”.
Em seguida vão-se apresentando mais elogios para a dama / “Quando o samba começava você era a mais brilhante/”, e mais demonstrações da separação e do afastamento dela para com ele / “Hoje a gente anda distante do calor do seu gingado/; Você só dá chá dançante onde eu não sou convidado” /. O fato deles “hoje andarem distante” implica que antes tiveram uma relação que não existe mais e o fato dela só “dançar onde ele não é convidado” deixa claro que essa relação foi extinta por ela e que, se dependesse do desejo dele, ambos ainda estariam juntos. No trecho / “O meu samba assim marcava na cadência os seus passos” / explica uma dependência dele em relação a ela, uma vez que cadência significa regularidade de movimentos ou de sons, e essa regularidade de movimentos do samba (amor) dele era marcado (guiado) através dos passos dela.

A relação que existia entre os dois, o forte sentimento que ele ainda nutre por ela e o desejo dele de voltar a ter essa relação continua sendo demonstrado no decorrer da canção, como na seguinte parte:
“O meu sonho se embalava no carinho dos seus braços
 Hoje de teimoso eu passo bem em frente ao seu portão.
 Pra lembrar que sobra espaço no barraco e no cordão”

O trovador deixa claro sua insistência em lembrá-la que ele ainda a ama e que ainda a quer de volta. Isto é relatado quando o poeta diz que de teimoso passa em frente ao portão da amada, lembrando-a que caso ela queira voltar, tanto a casa dele (barraco), quanto a escola de samba (cordão) que os dois freqüentavam juntos continuam a esperá-la.

Chegando ao fim da canção o poeta vai explicitando o motivo da separação e o porquê do seu amor não ser correspondido mais. Ele explica o seu empenho em dar à amada tudo de melhor que podia: / “Todo ano eu lhe fazia uma cabrocha de alta classe/ De dourado eu lhe vestia pra que o povo admirasse” /, isso é demonstrado através da locução adjetiva “alta classe” que revela o desejo dele em fazê-la a melhor, e do adjetivo “dourado”, que se trata de outra analogia com o ouro, metal mais valioso que existe. E quando o poeta diz / “Quem brincava de princesa acostumou na fantasia” /, mostra um desejo da dama em ser realmente uma princesa e não viver numa fantasia, um desejo de usar ouro e não dourado.

No final da música o trovador explica, para não deixar dúvidas, o porquê da não correspondência do seu sentimento: / “Hoje eu vou sambar na pista, você vai de galeria/ Quero que você me assista na mais fina companhia/”, mais uma vez a relação de luxo e pobreza é feita com as palavras galeria, lugar de destaque nos desfiles das escolas de samba, e pista, lugar menos privilegiado. Quando o poeta diz para ela assisti-lo na mais fina companhia, essa companhia é um homem de uma classe superior à dele, demonstrado através do adjetivo “fina”. E nos últimos versos do poema / “Se você sentir saudade por favor não de na vista/; Bate palma com vontade, faz de conta que é turista”/, deixa claro, mais uma vez a suposta superioridade dela em relação a ela, que caso ela sinta saudade, ela o aplauda como uma turista, fazendo referência direta ao título “Quem te viu, quem te vê”, uma vez que quem a viu antes, a via na pista, sambando e fazendo parte da escola, e não na alegoria como uma turista.

5.6. ANÁLISE COMPARATIVA

Como vimos anteriormente, a mulher na Idade Média não tinha direito a expressar seus sentimentos, vivendo sempre submissa à vontade e desejos dos homens de sua vida, primeiro o pai, depois o marido. E essa relação de submissão é retratada no trovadorismo, especialmente nas canções líricas, onde a mulher permanece sem revelar seus sentimentos e, quando é mencionada nas canções, ou é vista como um ser inatingível (Canção de Amor), ou até tem seu amor relatado na canção, mas esse amor escrito por um homem e falado/cantado também por um homem (Canção de Amigo).
Hoje a mulher contemporânea tem mais liberdade, podendo expressar seus sentimentos. Essa liberdade teve início na década de 60 com a chamada “revolução sexual” e o surgimento da pílula anticoncepcional. Mas mesmo com toda essa “liberdade”, a mulher do século XXI tem muito de medieval ainda, um exemplo claro é o fato de chamarmos uma mulher casada de “dona”. Essa expressão é originada da Idade Média, onde as mulheres só passavam a ser dona de algo quando casavam, porque depois de casadas elas eram “donas” da sua casa e da sua família, uma vez que os papéis delas eram ser boa mãe, boa esposa e boa dona de casa (ver item 5.3).

Na canção trabalhada podemos ver como o compositor carioca faz a relação entre a mulher trovadoresca e a contemporânea. Como se trata de uma canção de amor, onde o trovador declara seu amor à dama inacessível e essa dama comunga do mesmo sentimento, não podendo retribuir porque é de uma classe social superior, Buarque traz a mesma temática só que a dama de sua canção se torna inacessível não pela questão social, mas sim porque ela não quer mais o amor do sambista, retratando bem a liberdade da mulher contemporânea que tem o poder de escolher o homem que quer ao seu lado. A cabrocha de “Quem te viu, quem te vê” é trovadoresca quanto posta numa posição inalcançável pelo mestre-sala e moderna quando rejeita o amor do mesmo, decidindo não permanecer mais ao lado dele e, quem sabe, indo atrás de outro amor.
Abaixo, áudio do programa "Chico Buarque Paratodos", sobre a canção QUEM TE VIU QUEM TE VÊ.


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Quem te viu quem te vê - por Chico Buarque Quem te viu quem te vê - por Chico Buarque Reviewed by Nezimar Borges/ Ana Maria Marat on sábado, fevereiro 10, 2018 Rating: 5

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