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Roberto Carlos em vida, rei posto, rei morto? — por Nezimar Borges.

Na última sexta-feira (22/12), a TV Globo exibiu programa em que o rei Roberto Carlos canta todo final de ano. Nessa esteira, "é possível supor que o compositor de 'O divã' não se sensibilize com trauma por qual passa os pobres brasileiros, vítimas das supressões de direitos básicos perpetrados pelo trágico golpe parlamentar de abril de 2016?", questiona o jornalista Nezimar Borges, editor do DMM. Ele lembra de outro trauma passado pelo rei, que na infância perdeu uma das pernas, porém, nem isso teria sensibilizado o cantor para causas sociais. Borges estranha ausência de mínimo de consciência política do cantor mais popular do país."O que faz o rei não se importar de fato com as dificuldades dos súditos, para demérito de uma linha sequer de repúdio à entrega do patrimônio nacional, que no presente gera fome e no futuro provocará morte certa?", escreve.

Do Editor.

Roberto Carlos em vida, rei posto, rei morto? — por Nezimar Borges.

Roberto Carlos é personalidade admirada por considerada parcela dos brasileiros, mais pela obra cancioneira do que qualquer outro quesito de suposto destaque. Para tantos, o considerado Rei do Brasil, é exemplo de ser humano comprometido com sensibilidade e alegria que traz à população pela TV nos fins de ano, pelo menos foi assim nos últimos 43 anos.

Nem tudo, entretanto, são flores no reino do cantor.

Ao olhar o histórico do rei, logo é notado trajetória alheia a qualquer apelo à sensibilidade social, foi assim durante toda sua vida, especialmente em períodos traumáticos para o povo brasileiro. No período de exceção chamado anos de chumbo predominou pela primeira vez sua distância da sociedade, quando passou incólume pela ditadura que solapou a democracia no país por mais de 20 anos.

Tal era a proximidade do cantor com o estado policial que chegou a ser condecorado pelos militares, listado entre os “artistas que se uniram à Revolução”. A relação com o poder não parou por aí. RC ocupou até cargo em conselhos do governo militar.

Fosse um cidadão comum, certamente essas linhas seriam dispensáveis pela obviedade, porém, para além disso, o rei poderia fazer parte de uma minoria que sofre na pele por estar em um Brasil que está socialmente entre os dez países mais desiguais do mundo.

Veja que controvérsia insana: o cantor mais popular entra nas estatísticas de pessoas que possuem deficiência física. Nem isso o torna sensível o bastante para atender chamado social.

É possível supor que o compositor de “O divã” não se sensibilize com trauma por qual passa os pobres brasileiros, vítimas das supressões de direitos básicos perpetrados pelo trágico golpe parlamentar de abril de 2016?

O que faz o rei não se importar de fato com as dificuldades dos súditos, para demérito de uma linha sequer de repúdio à entrega do patrimônio nacional, que no presente gera fome e no futuro provocará morte certa? Aliás em “O divã”, de 1972, RC revela melancolia e lembranças da perda da perna direita, abaixo do joelho, num acidente de trem em Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo, aos 6 anos de idade. “Relembro bem a festa, o apito/E na multidão um grito/O sangue no linho branco/A paz de quem carregava/Em seus braços quem chorava”.

Custa acreditar, repito, que quem compôs “O Divã”, decorrente do trauma pessoal de perder uma das pernas, não se sensibilize em relação à alteridade postas a outras minorias mutiladas pelo governo golpista, entre elas, indígenas, pobres, pretos, comunidades LGBTT, et caterna, não dê um pito sequer de repúdio contra mazelas proporcionadas pelo presidente ladrão, uma palavra em prol da consciência social, ao menos. Lamentável.

Aqui cobra-se um lampejo de consciência sociopolítica, pois trata-se de persona que poderia contribuir com seu povo. Afinal, se ao menos se assemelhasse com o cancioneiro Bituca das Minas, que concebeu que “todo artista tem de ir aonde o povo está”?

Enquanto a mesmice de todo final de ano vigora na TV, se aguardará o dia em que RC se manifestará, pelo menos à minoria dos deficientes físicos. Quando este dia prevalecer, será lançado luz sobre o dito: antes tarde do que nunca.

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Canção - O Divã. (Atualizado em 23/12/2017, às 18h33')



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Roberto Carlos em vida, rei posto, rei morto? — por Nezimar Borges. Roberto Carlos em vida, rei posto, rei morto? — por Nezimar Borges. Reviewed by Nezimar Borges/ Ana Maria Marat on sábado, dezembro 23, 2017 Rating: 5

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