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Violência e audiência: tudo a ver? – por Nezimar Borges.

O Apelo à audiência feito por veículos de mídia ao utilizar a ferramenta do sensacionalismo, é objeto deste artigo; lembra ainda da loucura do caso de "Guerras dos Mundos", de Orson Welles, que pirou os EUA e hoje faz exatamente 79 anos do ocorrido, 30 de outubro de 1938; o texto passa pela necessidade da construção do Coliseu romano com intuito de relaxar tensão entre a população e o governo imperial; mostra casos de violência como preposto para satisfação de demanda das pessoas por notícias com viés violento; o texto lampeja também sobre o Amapá, com a polícia que mais mata no Brasil.


Violência e audiência: tudo a ver?  – por Nezimar Borges.

A questão da violência remete às sociedades mais antigas e, desde quando o homem se entende como tal, vem ocorrendo casos com ampla repercussão junto ao público.

Na Roma antiga, a conturbada relação entre os governos e a população, anteriores à Era do imperador Flaviano, forçou o império a partir para a efetivação de políticas de amenização dos conflitos entre o povo e o governante, com objetivos claros: diminuir a pressão por demandas sociais.

Para este desvio de atenção do público, o imperador Flaviano teve a ideia da construção de um grande centro de reunião de pessoas. Saiu daí para o papel e, anos depois, foi concluída a construção do Coliseu, obra bem-sucedida para sua finalidade, unir o útil ao agradável, desviar a atenção do povo sobre o governo e dar-lhe emoção diante da dureza da vida cotidiana, através de uma política exitosa denominada “pão e circo”.

Ali, foram iniciados os primeiros eventos com grandes aglomerações de pessoas, que chegavam aos patamares de até 80 mil em dias de datas comemorativas do Estado Imperial. A dimensão do público era invejável, levando em consideração as “metrópoles” daquela época. Sem jornais ou canais de televisão e rádios, o público se deliciava com a violência no Coliseu, quando condenados pelo sistema romano lutavam em pares num jogo de vida ou de morte.

Com o advento do rádio, a busca pelo sensacional deu a tônica para atrair o público a qualquer custo, com uso frequente de efeitos do sensacionalismo capazes de causar impacto, de chocar a opinião pública, geralmente, sem que haja qualquer preocupação com a verdade. O caso Orson Welles sobre a “Guerra dos mundos”, há exatos 79 anos, é exemplo histórico — nos idos de 1938, através de uma radionovela pelas ondas da rádio CBS americana, impressionou milhões de cidadãos diante da notícia que causou pânico em decorrência do ataque de naves extraterrestres à Terra.

O episódio surreal proporcionado por Wells tem associação com a violência real das grandes batalhas de vida e morte no Coliseu romano, porque ambos públicos são mobilizados pelo teor violento diante da morte iminente. A atenção das pessoas é desviada de alguma forma para a esfera da violência. Essa atração provocada pela violência causa uma espécie de anestesia momentânea e consequente cegueira. Wells resumiu esta alienação do público quando disse que muitas pessoas são bastante educadas para não falar com a boca cheia, porém, não se preocupam em fazê-lo com a cabeça oca.

Na esfera do sensacionalismo televisivo, o caso da Escola Base é objeto de vários estudos na área jornalística, pois revela a verdade por trás da irresponsabilidade no trato da notícia, com consequências catastróficas para os envolvidos, quando se atravessa a fronteira do jornalismo, ao se utilizar da violência como apelo à audiência.

O ano era o de 1996, os donos da Escola de Educação Infantil Base, na zona sul de São Paulo, foram chamados de pedófilos por alguns veículos de imprensa, que influenciaram mais uma vez a opinião pública. Eles acusaram, julgaram e condenaram Icushiro Shimada, Maria Aparecida Shimada, Mauricio Alvarenga e Paula Milhim Alvarenga.

De acordo com o processo de indenização divulgados pela mídia, os “condenados” não tiveram a mínima chance de defesa contra alguns veículos de mídia, avarenta pelo sensacionalismo (violento). Há relatos de notícias à época dos acontecimentos que, antes de praticar as ações perversas, os quatro sócios cuidavam ainda de drogar as crianças e fotografá-las nuas.

“Kombi era motel na escolinha do sexo”, estampou o extinto jornal Notícias Populares, editado pelo Grupo da Folha de São Paulo. “Perua escolar carregava crianças para a orgia” afirmara. Lamentável. Mas compreensível do ponto de vista do apelo à audiência. Porém, uma afronta ao artigo 9º do Código de Ética do jornalista, que versa que a presunção de inocência é um dos fundamentos da atividade jornalística.

Alguns comportamentos de veículos jornalísticos com relação à violência urbana, principalmente de portais de internet, sobretudo em redes sociais, ultrapassaram todos os limites da esfera do jornalismo. Há casos em que o autor da matéria, na busca pela audiência, ao extrapolar da esfera do jornalismo, é obrigado a alterar a chamada da reportagem ou o conteúdo diante da repulsa e pressão dos leitores. Exemplo ocorreu com o respeitado jornalista Seles Nafes, em matéria sobre a relação carnal entre um senhor de 39 anos de idade e uma garota de 13 anos.

É comum o compartilhamento de posts nas redes sociais, principalmente no Facebook, de publicações jornalísticas sobre casos de violência relacionadas ao Batalhão de Operações Especiais do Amapá (Bope). Tais publicações ganham curtidas e compartilhamentos com velocidade impressionante. Usuários conservadores, outros desinformados, adeptos do “bandido bom é bandido morto”, ficam alucinados com o escracho dispensado aos tais “bandidos”.

A exploração da violência chega a patamares macabros quando existem vítimas fatais em decorrência de supostos confrontos entre bandidos e policiais.

Constantemente, a polêmica vem à tona nas discussões acadêmicas dos cursos de jornalismo: a imprensa tem parcela de culpa no crescente nível de violência nas cidades ao fazer sensacionalismo? Ou apenas reflete a realidade? Sem essa cobertura da mídia, haveria tantos casos de violência no seio da sociedade?

A resposta para esta questão não é tão simples quanto parece. Desde antigos relatos da história antiga, quanto àqueles da história bíblica, a humanidade está imersa em caos de extrema violência, independentemente de estado ideológico, psicológico, sociológico, religioso, e a qualquer tempo.

O que se percebe na prática é que há uma relação inversa com níveis de qualidade de políticas públicas, pois, em grandes centros urbanos quanto mais igualdade social, menos os índices de violência, proporcionando menos casos de sensacionalismo com apelo à audiência. Nesse aspecto, dois exemplos bem definidos corroboram para esta constatação: a discrepância mostrada pelos números do Ministério da Justiça quando se analisa os índices proporcionais por habitantes em casos de mortes de supostos bandidos e até inocentes, segundo a OAB-AP, em “confronto” com a Polícia Militar do Amapá. Há de se esperar certamente capas sensacionalistas em decorrência dos dados recentes de 2016 que revelam que a polícia do Amapá é a que mais mata no país, com 7,5 mortes para cada 100 mil habitantes, seguido pelo estado do Rio de Janeiro, com 5,6 mortes. A média nacional é de 2,0 mortes para cada 100 mil habitantes.

A conclusão a que se chega é que a busca pelo sensacional nos meios de comunicação para se chegar à audiência, principalmente nos meios alternativos da imprensa, é uma questão apenas de suprir uma demanda das pessoas ávidas por consumir este tipo de notícia “jornalística”.

Ora, se o vale tudo pela audiência for considerado uma droga que pode entorpecer o veículo, e se a busca por ela pode extasiar muito mais o público através da violência, portanto onde quer que se manifeste o jornalismo, haverá sempre apelo pelo sensacionalismo.
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Violência e audiência: tudo a ver? – por Nezimar Borges. Violência e audiência: tudo a ver?  – por Nezimar Borges. Reviewed by Nezimar Borges/ Ana Maria Marat on segunda-feira, outubro 30, 2017 Rating: 5

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