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Uma interpretação “Sobre todas as coisas”, de Chico Buarque/Edu Lobo – por Nezimar Borges.

A agonia e o sofrimento de uma relação que sucumbe e que outrora fora harmoniosa e satisfatória para os dois polos de um casal se refere esta hermenêutica “Sobre todas as coisas”, de Chico Buarque/Edu Lobo.


Pelo amor de Deus
Não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem
Não vê que Deus até fica zangado vendo alguém
Abandonado pelo amor de Deus
De acordo com exercício mental — que procede do simples, sem adentrar no complexo das relações humanas no que tange à filosofia da qual pode decorrer outras interpretações — a síntese da canção cerca-se do apelo ao amante com chamado à entidade sobrenatural como derradeira alternativa para restaurar relação amorosa. A separação traumática diante da finidade do amor pretendido por uma das partes, cujo convívio certamente esteve em equilíbrio na vida pregressa de ambos, permeia “sobre todas as coisas” do início ao fim da composição. Inicia com apelo ao infinito amor do Criador para intervir no plano material sobretudo no sentimental: “Pelo amor de Deus!”. Expressão bastante utilizada como vocativo quando se quer atingir objetivos amenos ou sérios, como é este o caso, de vida ou de morte do amor.

Para ela, o apelo serve prontamente, antes de tudo, para permitir atenção do ex-companheiro visando sensibilizá-lo para a atmosfera de profunda tristeza e melancolia por qual passa em decorrência do sentimento não correspondido. Um drama que pode ser comparado à sacrilégio diante da situação deslocada da realidade amorosa, embora uma das partes ainda alimente imenso querer: “Não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem? ”. Desprezada, segue além ao lançar mão de importantíssimo aliado quando se trata de problemas da humanidade, fundamental àqueles relacionados ao amor. “Não vê que Deus até fica zangado vendo alguém abandonado? ” Aqui o apelo ultrapassa a linha tênue entre o material e o transcendental, fruto do desespero emocional desmedido, pois desloca sentimentos terrenos e humanitários ao Poderoso, como se fosse possível Deus, na Sua grande misericórdia, sentir alguma espécie de sentimento humano: angústia, decepção, dor, vingança, raiva. Neste chamado atribulado, ela aposta derradeiras palavras para trazê-Lo como “advogado” para sua causa, em face da fase terminal da relação. Segue a segunda invocação, emocionada, fechando a primeira estrofe: “(...) pelo amor de Deus!”.
Ao Nosso Senhor
Pergunte se Ele produziu nas trevas o esplendor
Se tudo foi criado - o macho, a fêmea, o bicho, a flor
Criado pra adorar o Criador
Prossegue penitência com intuito outra vez de convencer o amado a reatar relação. Espera talvez que, se ele for cristão verdadeiro, poderá ter uma chance de tê-lo (pois não seria através da remissão e do sacrifício que se vive o amor?), esquecer o passado, e recomeçar novamente. Nesse sentido, aponta para a grande realização do Criador – a luz do amor. “Pergunte se Ele produziu nas trevas o esplendor”. Nessa passagem, ela concatena signos entre a luz do mundo subliminarmente metaforizado pelo amor, o perdão e a situação em tese, o impasse do ressentimento, do desprezo e desamor simbolizado pelas trevas, como parâmetro para se chegar à reciprocidade na relação.
E se o Criador
Inventou a criatura por favor
Se do barro fez alguém com tanto amor
Para amar Nosso Senhor
Na desolação do revés sentimental, exalta o mistério de Deus: a concepção da humanidade. Antes, porém, suplica “por favor” com o enaltecer do Criador. Mais uma vez ela retoma mais um argumento para convencer o ex-amante: o Criador na Sua imensa grandeza jamais criaria o universo, a natureza e especialmente o homem à Sua semelhança se não fosse para amar mutuamente. Nesse pretexto há recusa à acepção de que Deus criou o universo, a humanidade, ou o amor, para Si mesmo.
Não, Nosso Senhor
Não há de ter lançado em movimento terra e céu
Estrelas percorrendo o firmamento em carrossel
Pra circular em torno ao Criador
Nessa estrofe ela refuta outra vez a ideia de que a obra divina é vã. “Não, Nosso Senhor/Não há de ter lançado em movimento terra e céu”, isto é, por meio da demonstração do lamento incomum, seu amor não deve ser algum objeto banal associado à efemeridade e vai além ao encaixar o sucesso do seu desejo (de retomar à relação plena) à obra de Deus, pois o sentimento que denuncia tem de ter função precípua e fomentadora do equilíbrio universal. “Estrelas percorrendo o firmamento em carrossel/Pra circular em torno ao Criador?”.
Ou será que o deus
Que criou nosso desejo é tão cruel
Mostra os vales onde jorra o leite e o mel
E esses vales são de Deus
A aflição chega, enfim, às fronteiras da dúvida se desígnio será alcançado. Oh! Desejo tão cruel! Até este momento, depois de insistentes apelos, fraqueja, talvez consciente da perda definitiva, contudo, sem ofender de forma alguma o Deus poderoso. Ela hesita se o sofrimento a que está submetida não se deve ao Criador, mas ao deus vulgar – príncipe das trevas, ao sugerir culpa pelas mazelas do mundo material/sentimental: “Ou será que o deus/Que criou nosso desejo é tão cruel”. Depois dessas linhas pode se remeter à dualidade bom e mau, entre o mel, a delícia da carne, do sexo, da paixão, do prazer, enfim, com a angustia da abstinência e da dor. “Mostra os vales onde jorra o leite e o mel”, [Êxodo 3:8] está em sintonia com metáfora do amor [mel] e a antítese pelo viés do desprezo e do abandono[cruel]. Ela provara da delicia do amor correspondido, feito “leite e mel”, mas por obra do anjo mau o amor alheio veio a perecer.
Pelo amor de Deus
Não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem
Não vê que Deus até fica zangado vendo alguém
Abandonado pelo amor de Deus
Por fim, em fechamento da canção ela volta a rogar “pelo amor de Deus!” ao seu amado. “Não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem/Não vê que Deus até fica zangado vendo alguém abandonado[sem amor? ] ”
Retoma a estrofe inicial, prorroga-se o sofrimento e prossegue o apelo “pelo amor de Deus!” ao amor desiludido, ajoelha-se quiçá em súplicas e prantos mais uma vez.

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Uma interpretação “Sobre todas as coisas”, de Chico Buarque/Edu Lobo – por Nezimar Borges. Uma interpretação “Sobre todas as coisas”, de Chico Buarque/Edu Lobo – por Nezimar Borges. Reviewed by Nezimar Borges/ Ana Maria Marat on quinta-feira, abril 13, 2017 Rating: 5



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