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Uma interpretação para “Acorda Amor”, de Chico Buarque - por Nezimar Borges.

Nos 53 anos do golpe de 1964, a canção “Acorda Amor”, de Chico Buarque, reflete o período de terror constante que vivia a população brasileira.


Acorda amor
Eu tive um pesadelo agora
Sonhei que tinha gente lá fora
Batendo no portão, que aflição
Era a dura, numa muito escura viatura
Minha nossa santa criatura
Chame, chame, chame lá
Chame, chame o ladrão, chame o ladrão


Esta estrofe mostra suposto diálogo de um casal, com destaques para a voz grave. Ele pedindo para a companheira retomar à consciência. Além disso, faz uma analogia entre a agonia do sono impregnado de pesadelos, com o terror que a população brasileira pressentia quando a Polícia Militar da época batia à sua porta. Tais diligências na maioria das vezes era acompanhada de ilegalidades e truculência, sobretudo de violência desenfreada. A 'dura', Chico abrevia ditadura, inicia-se aí a perseguição desmedida que muitas vezes terminavam em morte. Nessa estrofe, ainda pode se inferir a ligação entre o terror fictício [sonhos e pesadelos] ao terror factual [arbítrios e perseguições políticas com torturas físicas e psicológicas]. Diante do perigo iminente, a quem recorrer se é a própria Polícia autora da ilegalidade? Ora, nesse enredo de ‘batida’, se têm "os homens da lei" então o que falta é o infrator, já que se trata de um casal de bem, então apelam para o ladrão, “chame o ladrão! ”.

Acorda amor
Não é mais pesadelo nada
Tem gente já no vão de escada
Fazendo confusão, que aflição
São os homens
E eu aqui parado de pijama
Eu não gosto de passar vexame
Chame, chame, chame
Chame o ladrão, chame o ladrão


Há uma relação profícua entre o tato, sentido sensível através da pele, e a inconsciência quando se está dormindo, com sensações físicas reais interferindo no pesadelo. Daí, do arrombamento do portão até a subida da escada, com a confusão que se inicia, ele acorda. “São os homens”, Chico se refere a um dito popular da época atribuída a policias, agentes da ditadura. “Eu não gosto de passar vexame”, literalmente ele foi pego com as calças na mão ou com vestimenta inapropriada para a ocasião, de prisão certa.

Se eu demorar uns meses
Convém, às vezes, você sofrer
Mas depois de um ano eu não vindo
Ponha a roupa de domingo
E pode me esquecer


A estrofe mais tocante da canção. Chico se refere à dor da perda: a morte inequívoca nos calabouços da ditadura. Ele dá um prazo máximo de tempo se sobreviverá à prisão, um ano. Depois de um ano ela pode esquecê-lo e se aventurar por outro amor. Esta estrofe parece se referir apenas ao casal, porém pode se associar também à agonia dos pais e mães de desaparecidos, que não tiveram prazo algum para pôr fim ao sofrimento, muito menos um corpo para enterrar seus filhos e filhas.

Acorda amor
Que o bicho é brabo e não sossega
Se você corre o bicho pega
Se fica não sei não
Atenção
Não demora
Dia desses chega a sua hora
Não discuta à toa não reclame
Clame, chame lá, chame, chame
Chame o ladrão, chame o ladrão, chame o ladrão
(Não esqueça a escova, o sabonete e o violão)


Na estrofe que fecha a composição, Chico parece lançar mão de dito muito usado pela população em situação de “beco sem saída”: se ficar o bicho pega e se correr o bicho come. Está configurado neste fechamento o estado de exceção, visto que não era de grande valia argumentar. “Atenção/Não demora/Dia desses chega a sua hora/Não discuta à toa não reclame”, além de suscitar que qualquer um estava ao alcance da ditadura e poderia ser atingido pelo arbítrio.  “Não esqueça a escova, o sabonete e o violão”. Nesta linha final, o compositor destaca os objetos que os agentes do DOPS requisitavam a quem era capturado; de fora desses itens estava a arma contra o estado policialesco – o violão.
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Uma interpretação para “Acorda Amor”, de Chico Buarque - por Nezimar Borges. Uma interpretação para “Acorda Amor”, de Chico Buarque - por Nezimar Borges. Reviewed by Nezimar Borges/ Ana Maria Marat on sábado, abril 01, 2017 Rating: 5



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