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Quem espera sempre alcança?

Professora Gilda Kluppel, da Universidade Federal de Curitiba, escreve sobre os ditos populares e destaca chamada do compositor Chico Buarque contra o conformismo. Letra e música poderia ser hino ao ano de 2017.


Da Revista Amálgama.


Quem espera sempre alcança?

GILDA KLUPPEL - O "MPB Especial" de 1973 mostra um Chico em início de carreira mas já autor de clássicos

por Gilda E. Kluppel * – Alguns toleram, muitos gostam de repetir, outros sequer suportam escutar os ditados populares, expressões utilizadas em nosso cotidiano, compostas por uma gama de mensagens. Existem os conformistas: “Deus dá o frio conforme o cobertor”; os supersticiosos: “agosto, mês do desgosto”; alguns se contradizem: “antes só que mal acompanhado” e “a solidão não é boa companheira”; outros bem-humorados: “se a vida te dá um limão, faça com ele uma limonada”. Ditados com mensagem subliminar não captada no momento em que ouvimos: “atrás de um grande homem, sempre tem uma grande mulher”. Ao contrário de valorizar a mulher, estrategicamente colocada atrás do homem, pode-se compreender que se um homem não obtém sucesso, ele não tem uma grande mulher. Os ditados estão em todos os lugares e não deixam escapar nenhuma situação e, em muitos casos, transmitem a ideia de conformismo ou de fatalidade.

Quantas vezes as pessoas repetem, involuntariamente, e utilizam como referência para determinadas ocasiões os ditos populares, como se fossem de uma autenticidade indiscutível porque se solidificaram ao longo dos anos? Na verdade são expressões que compõem o senso comum, frutos de percepções imediatas da realidade. As sentenças, popularizadas pelo uso, soam como normais; sem necessitar de uma investigação mais profunda para comprovar a veracidade. A pessoa, ao se expressar por meio de ditados, não se responsabiliza pela sentença, pois parte de uma tradição aceita pela coletividade.

Chico Buarque, em “Bom Conselho” (1972), composta no auge da ditadura militar, recria os ditados populares e levanta vários questionamentos ao alterar o sentido das frases. Chico ultrapassa o senso comum e avança para o senso crítico; instiga o abandono da posição conformista ao clamar por mais ação:

    Espere sentado ou você se cansa. Está provado, quem espera nunca alcança.
    Ouça, meu amigo, deixe esse regaço. Brinque com meu fogo, venha se queimar.
    Faça como eu digo, faça como eu faço. Aja duas vezes antes de pensar.
    Corro atrás do tempo. Vim de não sei onde. Devagar é que não se vai longe.
    Eu semeio o vento na minha cidade, vou pra rua e bebo a tempestade.

A letra propôs um alerta para não se aderir ao senso comum, expresso pelo lema do “Brasil, ame-o ou deixe-o” que indicava, aos que ofereciam resistência, a opção da aceitação pacífica de um rebanho de cordeiros ou a porta de saída do país. Propagavam-se os jargões “ninguém mais segura este país”, “pra frente Brasil”, “milagre econômico” e sobretudo: “quem não vive para servir ao Brasil, não serve para viver no Brasil”, com a finalidade de incutir a necessidade da apatia e da indiferença. Esses slogans também soavam como verdades. A forma curta e de fácil memorização chegou a conquistar a simpatia de muitos, despertando a confiança nos rumos do país. Chico Buarque, no verso “semeio vento e bebo a tempestade”, sugere ousadia e confronto, rejeitando os antigos ditados e os novos jargões impostos pela ditadura; na tentativa de demonstrar a necessidade da reflexão e ação sobre a participação popular na reconquista da democracia.

Amaldiçoados pelo regime ditatorial, os poetas não se calaram nem ofuscaram seus sentidos, por meio de subterfúgio, na chamada “linguagem de fresta” encontraram a possibilidade de expressão das ideias. Num período em que as palavras, a ferramenta dos poetas, estavam sob suspeita e vigilância, as canções eram uma alternativa para denunciar as mazelas da sociedade. Nas entrelinhas a denúncia era realizada, iludindo a censura e concedendo um pouco de alívio às agruras da ditadura; em oposição ao cerceamento da liberdade de expressão que assolou o país.

A obra de Chico Buarque se constitui num vasto e precioso material de estudo da língua portuguesa e pela sua arte se torna eterna. Infelizmente, muitos estudantes leem a obra apenas para passarem em vestibulares e concursos e não estão acostumados em realizar suas próprias análises, sem a obrigação de uma lição de casa; mas pelo puro prazer em ouvir e refletir sobre as letras, ultrapassando os limites do óbvio e do senso comum. Desenrolando o emaranhado de fios de uma infinita teia de enganos que estamos sujeitos, entre os quais as inúmeras músicas com base na repetição exaustiva de um refrão banal, de fácil memorização e que não acrescenta nada em termos de conteúdo para a reflexão. Vale citar Fernando Pessoa: “O fim da arte inferior é agradar, o fim da arte média é elevar, o fim da arte superior é libertar. (…) Há as artes cujo fim é influenciar, que são a música, a literatura e a filosofia. Só a arte é útil. Crenças, exércitos, impérios, atitudes – tudo isso passa. Só a arte fica, por isso só a arte se vê, porque dura”.

Quando do alto bradavam palavras rudes em canções ecoavam palavras nobres. A música ofereceu contundente resistência por expressar e representar os ideais da sociedade crítica. Contrária à ideologia desenvolvimentista que impregnou o país e escondeu em seus porões o flagelo e a dor de muitos inocentes; se tornando uma das poucas vozes capazes de romper o tenebroso silêncio. Logo, a música não cooptada pela doutrinação e dominação vigente propiciou um estímulo à capacidade de compreensão e crítica; embora esta perspectiva não tenha iluminado o caminho de tantos que confiaram nos jargões da ditadura. Demonstrando a insatisfação com a repressão dos militares, muitos compositores difundiram suas críticas em letras formando uma coletânea sonora da ditadura no Brasil. Recordando que caminhando e cantando podemos seguir a canção…

A música “Bom Conselho” permite um retorno ao passado recente do terror arbitrário, ainda obscuro para tantos, principalmente os mais jovens. Ressalta a importância da luta pela construção de uma sociedade democrática ao adotar uma postura ativa – quem espera nunca alcança – em contraposição a ilusão que pela comodidade pode se obter e garantir as conquistas sociais, dispensando às mobilizações populares.

Neste ano, em que se realizaram eleições, o aparato doutrinário midiático procurou, como de praxe, cultuar o individualismo e o engano, ignorando a história dos embates dos movimentos sociais pela construção da democracia. Portanto, vale resgatar esta composição de Chico Buarque, após quase 40 anos, lembrando que as conquistas sociais não foram obtidas de graça, pela benevolência das autoridades; mas impulsionadas pelo sonho de uma geração em efervescência pelas reformas políticas.

Editado em DVD e lançado recentemente, numa série de entrevistas históricas, o programa “MPB Especial”, exibido pela TV Cultura de São Paulo em 1973, apresenta Chico Buarque em início de carreira, mas já consagrado autor de vários clássicos. Logo após o decreto do Ato Institucional n.º 5 (1968), Chico chegou a ser detido e levado ao Ministério do Exército, com a finalidade de prestar depoimento sobre a sua participação na passeata dos cem mil e também sobre as cenas exibidas na peça “Roda Viva”, consideradas subversivas. O programa “MPB Especial” foi gravado, poucos anos depois dele retornar da Itália, onde passou um período de exílio voluntário. Sob a mira da censura do governo ditatorial, a entrevista tem um tom intimista. O DVD inclui “Bom Conselho”, “Construção”, “Deus Lhe Pague” e “Tatuagem”, entre outros sucessos. Para quem viveu naquela época, o documentário acarreta significativas recordações e, para os mais jovens interessados pela história da música popular brasileira, uma oportunidade de conhecer melhor este grande compositor.

* Gilda E. Kluppel, Curitiba-PR, professora e Mestre em Educação pela UFPR.

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Quem espera sempre alcança? Quem espera sempre alcança? Reviewed by Nezimar Borges/ Ana Maria Marat on quinta-feira, dezembro 29, 2016 Rating: 5



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