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Desabafo de enfermeira sobre triste realidade da saúde pública do Amapá.

A jornalista Alcinéa Cavalcante publicou em seu blog, nesta segunda-feira, 18, a narrativa do triste quadro da saúde pública do Amapá feito pela enfermeira Ediane Andrade.


 — Compartilho 2 sentimentos que neste momento ocupam meu coração: Tristeza e Decepção — introduz a enfermeira em texto que denuncia o estado de inoperância que enfrenta todos os dias na maternidade Mãe Luzia.

Ela afirma que por causa do descalabro vivido todos os dias sua saúde mental e dos seus colegas de trabalho está no limite.

Sem leitos, sem materiais para fazer uma simples intervenção cirúrgica, sem banheiros ... “O cenário é arrasador”, diz ela.

A enfermeira apela para os homens de responsabilidade da sociedade amapaense.
 — Queria que todos os deputados, vereadores, prefeito e governador visitassem a minha maternidade, mas que fosse acompanhado por um de nós plantonistas que vive na pele todos os dias o DESCASO com a saúde de mulheres e profissionais, para ouvir de nós e delas o que realmente ocorre nos bastidores  — suplica Ediane.

E cobra a imprensa.
 — E a imprensa que só publica os problemas mas não cobra de fato uma mudança?

Do blog da Alcinéa Cavalcante.


O caos na saúde – Leia o desabafo da enfermeira
Desabafo de uma mulher cidadã que cuida de outras mulheres cidadãs/ Ediane Andrade

Compartilho 2 sentimentos que neste momento ocupam meu coração: Tristeza e Decepção.
Nas últimas 2 semanas estamos tendo um pico excessivo de lotação hospitalar na maternidade onde trabalho, Lembrando que isso já é vivido por muitos anos, mas nessas 2 semanas está pior.


A minha saúde mental e dos meus colegas de trabalho está no limite, quem sabe até já existam trabalhadores com problemas emocionais e por falta de cuidado com a saúde do trabalhador não se tenha dados reais.

Estamos atendendo no pré parto o triplo da capacidade de usuárias por leito, estamos juntando 4 pessoas num leito (2 mulheres e 2 bebês ) e mais pessoas sem condições de permanência pois acompanham as usuárias e não possuem uma cadeira para sentar e nem um banheiro para usar. O cenário é arrasador. E o pior, eu ter que ir pedir para dividirem leito para poder garantir para outra mulher que tenha ao menos uma cama para parir enquanto a outra gestante aguarda numa cadeira ao lado.


Estamos sem material estéril para usar porque a rede hospitalar pública não está oferecendo o quantitativo adequado para a demanda, estamos ficando sem lençol para cobrir leitos na madrugada, estamos mantendo pós operadas em macas e mesa cirúrgica por falta de sala de recuperação anestésica e leitos no pós operatório. No local dos partos e nascimento temos um cenário frio, hostil, onde ainda perdura diferentes condutas, onde podemos ter um parto tranquilo, mas tbm podemos ter um parto frustrante com um profissional subindo na barriga da mulher a outro tocando sua vagina como se estivesse lavando uma panela.


O outro hospital que atende o SUS manda paciente com síndrome hipertensiva para operar na minha maternidade pois lá não tem anestesista de madrugada. E isso pode? Mesmo que eu diga que não tem material, não tem leito, de nada adianta, a maternidade por ser pública tem que assumir tudo.


As mulheres estão expostas a tantas violências, desrespeitos e muitas vezes vindo de outras mulheres que já perderam sua sensibilidade por conviver com essa situação caotica. Estamos brigando entre nós, profissionais, gestantes e acompanhantes, estamos perdendo a noção do adequado e o improvisado passou a ser regra.


Queria que todos os deputados, vereadores, prefeito e governador visitassem a minha maternidade, mas que fosse acompanhado por um de nós plantonistas que vive na pele todos os dias o DESCASO com a saúde de mulheres e profissionais, para ouvir de nós e delas o que realmente ocorre nos bastidores.


Queria que os homens com mandato lembrassem de suas mães na hora de prometer uma outra maternidade, parece que eles nem se quer conhecem o que funciona lá.


Ninguém nesse mundo sendo humano, foi chocado ou nasceu de um ovo, todos nós nascemos de uma mulher. E POR QUE CONTINUAMOS


TRATANDO AS COISAS DE MULHERES DE FORMA DESRESPEITOSA?


Saimos eu e os outros colegas do plantão com a sensação de derrota. Isso mesmo, estamos nos tornando DERROTADOS naquilo que a Constituição Federal falou que era Direito do povo e Dever do Estado (a saude) estamos longe de ter o que merecemos. Onde está o recurso do executivo para a saúde? Uso fios grossos E agulhas grandes para costurar a pele de mulheres ao invés de fios finos com agulha pequena. Não tenho um leite quente para oferecer para elas depois do parto nas longas madrugadas no CPN.


E aí eu pergunto: Onde está o Ministério Público do Estado que não vê que e impossível uma maternidade de referência não ter uma autoclave? Não ter leito para as mulheres com seus filhos (que são incapazes) e já nascem expostos a infecção cruzada? Que pela falta de condições de trabalho pode levar um profissional a gerar dano ao usuário pela sobrecarga de trabalho e falta de material? E os deputados? Que no momento só se preocupam com a presidência da Assembleia e em quem vai derrubar o oponente do governo? E a associação de mulheres? E os sindicatos e conselhos de classe das categorias que estão nessa FAIXA DE GAZA amapaense?


E a imprensa que só publica os problemas mas não cobra de fato uma mudança?
Enfim, estou cansada, preciso descansar pois estarei a noite novamente convivendo com o horror. Onde deveriamos ter e oferecer um ambiente seguro e tranquilo, temos um local cheio de equivocos e desrespeitos. Falando em horror ainda nos é pago e com atraso 100 e 150 reais para técnicos e enfermeiros passarem 12h por esse processo todo porque ainda não temos reconhecido e efetivado o plano de cargos e salários, porque assumimos a carga horária de noturnos e finais de semana pois o governo não paga plantões para a Enfermagem.


Lembrando que em 2013 fui até a ALAP enquanto ABENFO pedir uma audiência pública para discutir o parto e nascimento e as condições de trabalho no HMML pois já me desgastava as milhares de difamações sobre o nosso trabalho. É difícil ser hostilizado publicamente como um trabalho desumano e porco qdo nem se quer somos ouvidos.
Vamos ver o que ocorrerá hoje, ou quantas críticas e retaliações receberei por expor 1/3 do que vivemos. O que ja vem acontecendo por perseguição política!

*Ediane Andrade é enfermeira obstetra.
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Desabafo de enfermeira sobre triste realidade da saúde pública do Amapá. Desabafo de enfermeira sobre triste realidade da saúde pública do Amapá. Reviewed by Nezimar Borges/ Ana Maria Marat on segunda-feira, julho 18, 2016 Rating: 5

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