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Jornalista analisa prisão de casal paraense

Chame o ladrão!: análise sobre prisão de casal dono de bar em Belém do Pará.

Foto: google images

O DMM repercutiu matéria do jornal Diário do Pará e do jornalista Lúcio Flávio Pinto, na última sexta-feira, 26, [aqui] sobre a suposta prisão ilegal do casal proprietário do "8 Bar Bistrô" em Belém do Pará, acusados de tráfico de drogas. O bar era bastante frequentado por artistas e jovens, além de intelectuais, que, segundo informações, o local era considerado 'referência' em debates políticos sobre os rumos da cidade, uma das mais violentas do país. Porém, isso não tem tanta importância diante da suposta extorsão, que teriam sofrido os acusados por parte da polícia. O casal já denunciara as investidas da polícia anos atrás. O caso pode desvendar uma faceta obscura da cidade considerada, repito, uma das mais violentas do país. (Do Editor).

Chame o ladrão! Por Lúcio Flávio Pinto

Talvez os responsáveis pela prisão do casal proprietário do bar alternativo 8 Bistrô imaginem que o final de semana com Karllana e João Pedro fora de circulação esvazie o caso. Eles pertencem a um mundo que é ignorado, hostilizado ou combatido pela maioria (geralmente silenciosa) da sociedade e por seus representantes institucionais, além dos poderes estabelecidos.

No entanto, não se trata – para esses setores – de um abuso a mais de autoridade ou da violação dos direitos de cidadãos que nem são reconhecidos como tal. Pelo contrário, são pessoas consideradas, em princípio, suspeitas. Para elas, não prevalece o princípio jurídico universal de que o acusado é inocente até prova em contrário. Ele é suspeito pela própria circunstância de existir.

Se fosse conforme a lei, os dois teriam prestado depoimento e sido liberados para responder em liberdade ao inquérito e eventual processo na justiça. Não apenas são trabalhadores com endereço certo. São também comerciantes, com estabelecimento em total regularidade para funcionamento.

A acusação que pesa sobre eles é grave: tráfico de drogas. Mas é uma acusação tão frágil que, mesmo com a prova material principal, os 44 papelotes de cocaína, não devia sustentar uma prisão em flagrante.

Karllana e João moram nos andares superiores do prédio onde funciona o bar, localizado num ponto central da cidade. Na vizinhança está uma boate ainda mais alternativa, para gays, travestis, transexuais e quem mais quiser frequentá-la. Alternativa, sim, mas comercial e convencional como negócio. Diferentemente do bar 8, que decidiu ocupar uma posição política no espaço onde também convive o comércio e a diversão.

Os 44 pacotes contêm algo em torno de 20 gramas do que a polícia apreendeu como cocaína. Abstraindo as notícias sobre a penetração clandestina de um homem encapuzado, antes do ingresso formal da polícia, que teria percorrido a casa e acordado o casal para abrir a porta principal, no que podia caracterizar a montagem do flagrante, o fato concreto é a pequena quantidade de droga para o tamanho do risco que ela acarretaria, sem falar na relação custo/retorno, tornando o negócio pouco atrativo.

Ainda mais porque, desde a primeira instalação do bar, em 2013, seus proprietários vêm litigando com a polícia, insubmissos aos métodos e objetivos das fiscalizações que ela tem feito ao estabelecimento comercial, provido de todas as autorizações e licenças necessárias, além de medidor de decibéis para prevenir problemas na vizinhança por causa de barulho. Não se sabe de um traficante de droga que se expõe voluntariamente diante do adversário, inclusive recorrendo ao órgão correcional da polícia, como Karllana diz que fez. A atitude é garantia de hostilidade por parte dos policiais. Não seria então para se precaver?

Ontem a polícia incinerou mais de uma tonelada de drogas, a maior operação desse tipo já realizada, com predomínio da maconha, cada vez mais consumida e em vias de descriminalização, conforme tendência mundial. As drogas pesadas – e baratas – são um problema de saúde pública, antes de o serem de segurança, justamente pelo acesso mais fácil. As drogas pesadas e caras, como cocaína e LSD, são um problema social e policial grave. De tal proporção e características que o episódio dos jovens donos do bar soa como despropósito.

Se a existência do tráfico for desfeita, como sugerem as aparências e a lógica, numa apuração séria, aí, sim, as autoridades terão que fazer uma investigação ainda mais rigorosa. Porque se estará confirmando um procedimento policial desonesto e ineficaz, a lançar suspeitas sobre essa forma já rotineira (e trivial mesmo) de operação, para a qual um problema grave se transforma em pretexto útil. Sem a devida seriedade, o braço armado do Estado transforma cidadãos em bandidos. Por isso, Chico Buarque eternizou a situação dramática da gente dita marginal (e largada à própria sorte) que, vendo a polícia, chama pelo ladrão.

É uma inversão de valores, mas ela só pode ser retificada por exemplo que restitua a confiança do povo na polícia. Não é a regra de hoje. Pelo contrário: é a exceção.

Leia também: Prisão de casal causa polêmica em Belém do Pará
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Jornalista analisa prisão de casal paraense Jornalista analisa prisão de casal paraense Reviewed by Nezimar Borges/ Ana Maria Marat on domingo, junho 28, 2015 Rating: 5

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