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O duro jogo jogado(sic!) na UNIFAP

A PANCADARIA VAI COMEÇAR - por JUDSON BARROS

Olhando hoje alguns escrito encontrei um com o título: MEMORÁVEL JOGO EM SÃO SÃO DOS PATOS.

Era um bocado de "moleque" que jogava muita bola: eu, Santo, Rinaldo, Osmar, todos entre 15 e 17 anos.

Nas férias de julho fomos convidados para um torneio numa cidade vizinha, São João dos Patos. Eram quatro os times: Nós, um de Pastos Bons e os outros dois da cidade, os melhores deles.

Com dois jogos no sábados saíram os finalistas, nós e o Racksantos (time de interior o nome é invocado) de São João. No primeiro nossa vitória não foi tão difícil. O jogo foi jogado, respeitando as regras, falta é falta, catimba não é falta. Os dois times se portaram de acordo com as regras do jogo e dentro do respeito pelo adversário. Nenhum dos times fez uso de sua respectiva caixa de ferramenta.

Como jogamos bem os comentários foram elogiosos. E já teve início os debates e as apontas para a decisão. A decisão vai ser uma grande partida, mas eu acho que os meninos de Uruçuí vão ganhar o jogo, disse o comentarista que transmitia o jogo por um serviço de som na beira do gramado.

E mesmo antes da partida decisiva já teve início a intimidação. São uns moleques, não vão ganhar da gente, nós não vamos organizar torneio para time de fora levar. Vamos ganhar nem que seja na porrada, na intimidação. Os doutores da bola estão no time daqui. A velha doença dos doutores de se acharem melhores. Já conheço ela desde tempos memoriais. Esses quebradores de coco não vão ver nem o azul. E assim já ficamos conscientes de que a decisão não seria fácil. Até parece um pouco com o momento que entrei na UNIFAP. Só era graduado com uns 6 meses de formado e, por isso não podia ter passado no concurso. Os meus concorrentes eram todos doutores e, era por um desses que a banca deveria optar. Ontem ainda me perguntaram quem tinha me colocado para dentro da UNIFAP.

Voltando à partida. Mas o jogo é jogado, tem hora que intimidar não surte efeito. Só tem uma bola que corre no campo, e a gente atrás dela. Quem conhece melhor dela tem o controle. E a regra básica para quem quer vencer é não menosprezar o adversário. Mas intimidar é pior ainda. Ninguém tem medo de ninguém. É na ocasião que se decide.

Em todo jogo o Santo rezava o Pai Nosso e a gente acompanhava, nem sei porque rezava, mas rezava.

O jogo nem bem começou e o time adversário partiu para a pancadaria. Vamos tirar você e o Santo do jogo na porrada. Juiz já não tinha mais do nosso lado. Só a bola.

- Fica pouco com a bola, passa logo, não divide, assim o Benedito gritava de fora do campo. Vamos entregar a bola para o Judson que ele decide. Terminou o primeiro tempo e eu não decidi.

- Tá com medo Judson? Perguntou o Santo. Fiquei calado. Mas tava.

- Não vou deixar fazer gol, vai ser como ontem. O jogo pode até terminar zero a zero, mas nós não vamos levar gol. O Santo era um zagueiro e tanto.

Voltamos para a segunda metade do jogo. O sol foi se pondo, fez sobra no campo e, eu observada mais o pender do sol. Depois de um tempo o medo foi passando, comecei a pedir a bola: pra mim, pra mim... E também teve reinício da pancadaria. Primeira falta, o juiz não apita. Segunda, também não, nem a terceira. Eu vou falar com ele e a reposta é "jogo é coisa de macho".

Mais pancadaria. Recebi a bola e corri para cima do zagueiro. Ia fazer o gol. Só reparei que tinha desmaiado quando acordei. O Osmar e o Kelson já choravam. Graças a Deus que acordou.

- Não vai mais continuar. Já pensou se esse menino morre, dona Dica ia mandar matar todo mundo. Não vai mais voltar. Disse o Bené.

- Eu quero continuar.

- Não dá certo, tu tá muito arrebentado. Disse o Santo.

- Eu vou continuar. Levantei, arrumei o Kichute...Ainda faltavam 30 minutos.

Pedi um pouco d'água e enquanto bebia refleti. Vou acertar as contas. Vou me precaver.

E o jogo recomeçou. O Santo continuou mantendo a promessa. E eu obrigatoriamente assumi a responsabilidade de decidir a partida.

- Quando pegar a bola passa para mim. Pedi a todos. A responsabilidade agora é minha. Naquele tempo só tinha 15 anos, hoje eu tenho 50.

O time adversário perdeu o controle e partiu para a violência, pancadaria desmedida. Até que saiu do nível suportável e o juiz expulsou um dele. Mas o jogo ainda estava zero a zero.

A bola saiu e eu chamei o Santo. Troca de posição com o Zé Mira e vem jogar mais perto de mim. Na primeira oportunidade que tivemos foi tudo de bom. Ele pegou a bola e meteu entre os dois zagueiros, eu corri pela lateral e alcancei antes do goleiro. Tava no filó, era um a zero. Quanta alegria. A classe começa a vencer a violência.

Depois do um a zero o jogo tornou-se uma guerra, um verdadeiro campo de batalha, um vale tudo sem regras, o desespero do time adversário foi desmedido. Mais pancadaria, em mim , no Santo, em todos. Ficou extenuante continuar em campo com o corpo arrebentado de porrada.

Mas o Santo dizia: Tu não vai sair. E eu apenas fiquei no campo, pois as condições físicas não permitiam mais jogar. E a pancadaria não diminuía. Mais outro expulso.

Aos 40 o Santo toma a bola e grita: é tua... é o segundo. Aos 44 outro. (e eu só tinha 15 anos, hoje eu tenho 50).

Time fraco é assim. Não tem futebol e acha que por intimidar e baixar o cacete vai ganhar o jogo. Que a pancadaria resolve. Talvez resolva com quem não sabe nem conhece as regras do jogo. Aos 15 eu já conhecia.

No mundo que vivemos não comporta mais intimidações, ameaças, sobretudo pelo fato de não rezarmos na cartinha dos outros, porque temos outra preferência, outro gosto, outro time, outra ideologia, outro partido.

Quem tem olhos para ver, veja, quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

Judson Barros. Professor de Direito Ambiental da UNIFAP. Macapá, 24 de outubro de 2014.

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