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Imprensa cooptada

Esquema do “mensalinho” marcou início do governo Waldez Góes Parte 1

Trio que comandou o "mensalinho" na era de "ouro" do governo de Waldez Góes - reprodução Folha
Folha do Estado/ER

Notas veiculadas em coluna política de tabloide local, edição de domingo e segunda-feira, 20 e 21 de julho, sob os títulos “Representação”, "Preço" e "Forcinha" escancara uma estratégia comumente empregada pelos opositores do governo estadual: nivelá-lo por baixo, na medida exata do ex-governo Waldez Góes (PDT), por meio de notas falaciosas ou falsas reportagens publicadas em jornais ou divulgadas por emissoras de rádio e TV controladas por desafetos políticos do governador Camilo Capiberibe (PSB).

Observadores atentos têm chamado a atenção para a manobra de atribuir à gestão atual as malfeitorias que foram cometidas no Amapá entre 2003 e 2010, principalmente em relação aos gastos exorbitantes com propaganda feitos no governo passado, cujos recursos eram canalizados e distribuídos pela agência de publicidade Amazoon – Sistema de Comunicação, do publicitário carioca Paracy Negreiros (no centro da foto).

O estratagema é atribuir ao governo pessebista as mazelas perpetradas pelo antecessor de Camilo e que por oito anos foram minimizadas pela Imprensa “chapa-branca”. Ou seja, trata-se do mesmo recurso defendido pelo ex-ministro da Fazenda do governo Itamar Franco, Rubens Ricupero, durante entrevista ao jornalista Carlos Monforte: “o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde". Durante oito anos, parte da Imprensa regiamente paga escondeu, como pôde, os males infringidos ao povo amapaense pelo governo Waldez Góes.

O atual comportamento da mídia reflete pelo retrovisor da história um relacionamento intrinsecamente mercantilista – portanto, extremamente prejudicial à população – com os antigos donos do poder no Amapá. As estripulias de (alguns) radialistas, jornalistas e donos de empresas de comunicação no decorrer dos oito anos da “era Góes” no Estado foram tantas – e certamente inesquecíveis – que é impossível enumerá-las. A começar pelo “mensalinho” instituído nos primórdios do governo Waldez para contemplar radialistas e jornalistas que assumissem atitude subserviente para com os membros da “corte”.

Foi assim por quase uma década, e às escâncaras. Raríssimos “comunicadores” vexavam-se em expor as minudências de suas tratativas com a Secretaria de Estado da Comunicação (SECOM), à época capitaneada pelo economista Olimpio Guarany (na foto à esquerda). O mais surpreendente é que entre 2003 e 2004 o butim começou a ser distribuído, via boca do caixa, sem faturas ou recibos, tampouco nota fiscal. As filas de radialistas, jornalistas e donos de jornais ou de emissoras de rádio se formavam aos olhos do público, de quem passasse na rua Hildemar Maia, trecho entre as avenidas Procópio Rola e Raimundo Álvares da Costa, endereço da Amazoon.

Foi com essa parte da Imprensa que o governo Waldez sempre contou para criar “guarda-chuvas” de Comunicação, como gostava de conceituar o jornalista Marcelo Roza (na foto à direita), na época ex-secretário da Comunicação do governo João Alberto Capiberibe (1995 – 2002), e que cobiçava em silêncio sua antiga cadeira, temporariamente ocupada por Guarany. Roza voltaria ao cargo em 2004. Foi nesse período de florescência da “era Góes” que a política do “pão e circo” começou a ser formatada.
O conceito do “guarda-chuva” de Comunicação também foi empregado para trabalhar exaustivamente junto à população de baixa renda ideias de “desenvolvimento com justiça social” por meio de programas assistencialistas e de massiva propaganda mostrando que o Amapá estava se transformando num gigantesco canteiro de obras. Na verdade, uma grande falácia sustentando a propaganda oficial do governo Waldez.

A partir desta edição, passaremos a relatar em três reportagens especiais os detalhes da implantação do “mensalinho” que beneficiou dezenas de radialistas e jornalistas com o que se convencionou chamar na época de “jaraqui” (uma espécie de gorjeta mensal), valor em dinheiro pago para que a Imprensa (com algumas raras exceções) mostrasse apenas o que era “bom” da gestão do pedetista Waldez Góes.

Pagamentos eram feitos na boca do caixa e sem nenhum comprovante

Ainda hoje, moradores da rua Hildemar Maia, trecho entre as avenidas Procópio Rola e Raimundo Álvares da Costa, bairro Santa Rita, recordam da “multidão” que se formava todo fim de mês em frente à um imóvel pertencente ao empresário Jorge Récio, locado para o publicitário Paracy Negreiros, então todo-poderoso homem de marketing do governo Waldez Góes (PDT). Eram dezenas de homens e mulheres, postados à frente da Amazoon – Sistema de Comunicação desde as primeiras horas da manhã, formando uma grande fila que abrangia todo o quarteirão.

A maioria esperava pelo pagamento que a agência Amazoon – Sistema de Comunicação, firma de publicidade oficialmente controlada por Negreiros, foi encarregada de fazer aos radialistas, jornalistas e donos de veículos de comunicação com atuação em Macapá listados pelo então secretário de Estado da Comunicação, Olimpio Guarany, para receber os respectivos proventos – cada um conforme grau de importância no novo modelo.

Sob o comando do advogado Gutembergue Jácome, coordenador geral da campanha de Waldez Góes nas eleições de 2002 e eminência parda no novo governo, a Secretaria de Estado da Comunicação (SECOM) montou um grande esquema de cooptação da Imprensa local por meio de pagamentos mensais, feitos via Amazoon, para divulgar as medidas de governo e elevar a imagem do governador à condição de “estadista e reformador”.

Era o primeiro semestre de 2003, e Paracy Negreiros, que passara cinco meses sem receber um tostão da SECOM, começava a gerenciar volumoso recurso (primeira parcela de aproximadamente R$ 5 milhões) para “investir” na propaganda do governo Waldez Góes. Mas, antes de botar a mão na bolada, Negreiros, que fora um dos coordenadores de campanha do pedetista, passara por terríveis apertos financeiros.

De dezembro de 2002, quando alugou o imóvel de Jorge Récio, a junho de 2003, mês do repasse da primeira parcela dos recursos provenientes da Comunicação do governo Waldez Góes, o veterano publicitário Paracy Negreiros conduziu um negócio que não existia nem no papel. A nova agência de publicidade funcionava precária e ilegalmente, com móveis e equipamentos de informática cedidos pelos próprios funcionários, com poucas cadeiras e mesas, e sem local definido para que a pequena equipe de um redator publicitário, um revisor, um designer e um aprendiz de designer (na época), pudessem desenvolver suas atividades.

Em alguns momentos, Paracy duvidou da promessa feita por Waldez de que ele comandaria toda a publicidade do governo. Principalmente, antes de formulada a licitação que seria direcionada para a Amazoon – Sistema de Comunicação. Para reforçar a equipe, e também em obediência uma sugestão advinda do Palácio do Setentrião (sede do governo amapaense), o publicitário anunciou a “contratação” do jornalista Marcelo Roza, ex-secretário da Comunicação do governo João Alberto Capiberibe. Ao se apresentar, Roza foi incumbido de organizar os documentos referentes à licitação e, em especial, acompanhar Negreiros nos encontros com membros do novo governo.

Marcelo Roza torna-se homem de confiança de Paracy Negreiros

Com a desincompatibilização do governador João Capiberibe em abril de 2002 para concorrer ao Senado, assumiu a vice-governadora Dalva Figueiredo (PT). No comando do Executivo, Dalva deveria manter a estrutura do governo anterior, com os proeminentes do PSB de Capiberibe ocupando os mesmos cargos, concorreria à reeleição calçada na máquina estadual e com o apoio do partido aliado. Este, pelo menos, foi o acordo firmado em encontro na residência oficial antes de Capiberibe oficializar sua candidatura.

Logo após a posse, Dalva Figueiredo fez exatamente o contrário. Exonerou aliados do ex-governador e nomeou gente de sua confiança para cargos antes ocupados por “capiberistas” históricos. Dentre os dispensados pela então governadora do Amapá estava o jornalista Marcelo Roza, que dois anos antes havia deixado a editoria geral do Jornal do Dia para assumir o cargo.

Antes de ingressar na Amazoon – Sistema de Comunicação, Roza vinha lutando para emplacar uma pequena firma de assessoria de Imprensa nominada “Mapa da Mídia”, que funcionava na própria casa do ex-secretário, no bairro do Cabralzinho. A ME (microempresa) também oferecia serviços de “clippagem” (processo de selecionar notícias em jornais, revistas e outros meios de comunicação) para uma clientela específica. O negócio não prosperou. E o convite para o novo emprego veio em boa hora.
Com Roza na Amazoon – Sistema de Comunicação, Paracy Negreiros acelerou o processo de formatação dos documentos, recolhendo currículos dos demais integrantes da equipe para consubstanciar a papelada. Acompanhado à distância por Gutembergue Jácome, o publicitário conseguiu superar os contratempos e finalmente conquistar a conta do governo do Estado numa licitação repleta de controvérsias e conduzida irregularmente para beneficiar a agência dele. (continua..)
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Imprensa cooptada Imprensa cooptada Reviewed by Nezimar Borges/ Ana Maria Marat on terça-feira, julho 22, 2014 Rating: 5

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