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A história da corrupção na SESA - Parte III

Jornal semanário Folha do Estado continua o retrospecto (III parte) da corrupção  na saúde da época denominada "era da harmonia" (2003/2010), de efeitos danosos sentidos até os dias atuais


Waldez Góes acusado de pertencer a maior quadrilha de corrupção do AP - reprodução
Folha do Estado/ Emanoel Reis

Em sete anos e três meses (2003-2010), o governo Waldez Góes revelou mais competência para produzir escândalos envolvendo auxiliares do primeiro escalão do que para melhorar a qualidade de vida da população amapaense. Quando Waldez foi preso pela Polícia Federal na manhã de 10 de setembro de 2010, existia uma unanimidade no estado: o governo que agonizava naquele momento tinha sido um desastre, acumulando do começo ao fim uma quase ininterrupta sucessão de fracassos.

Uma das poucas personalidades públicas no Amapá que acham que o ex-governador Waldez Góes não foi um fracasso inigualável chama-se Waldez Góes. Ao deixar o Complexo Penitenciário da Papuda (DF), onde permaneceu preso acusado de corrupção passiva e ativa, peculato, formação de quadrilha, malversação e fraudes, o ex-governador carregava sobre os ombros uma pesada reprovação moral e política. Não há dúvida de que a razão central dessa catástrofe governamental está no fato de Waldez, no fundo, ser um homem incapaz de tomar grandes decisões.

A tibieza foi uma de suas principais características enquanto esteve à frente do governo. A exemplo da mulher, Marília Góes, jamais reagiu contra o esquema criminoso montado desde 2003 na Secretaria de Estado da Saúde. Pelo contrário, provas recolhidas pela Polícia Federal revelam que o casal também se locupletou do dinheiro sujo proveniente da “máfia dos medicamentos”.

E mesmo quando surgiram as primeiras denúncias de corrupção na Sesa, Waldez manteve-se convenientemente à distância dos acontecimentos, a princípio, seguindo orientações de seu principal conselheiro, Gutembergue Jácome, mais tarde substituído por Alberto Góes, o primo convertido em mentor e super-secretário que por mais de três anos mandou mais no governo do que o próprio governador.

Esse comportamento frouxo ganhou contornos mais definidos entre 2005 e 2006, durante a gestão na Sesa do pediatra Uilton José Tavares. E Waldez só decidiu mexer na secretaria por insistência do próprio Uilton que, alegando problemas de saúde, foi sucedido pelo também pediatra Abelardo da Silva Vaz em cerimônia realizada no Palácio do Setentrião, na manhã da quarta-feira, 8 de novembro de 2006. Esse episódio revelou o clássico comportamento de um político menor do que o cargo.

Aliás, para a maioria Waldez Góes exerceu a governança como um passeio ao acaso, idêntico ao de um turista que visitando a Europa pela primeira vez se perde do resto da excursão. Como resultado, passa o dia percorrendo igrejas que não conhece, ouvindo vozes de pessoas que falam uma língua que não compreende e volta para o hotel, exausto, sem saber o que viu e o que visitou.

Mas, diferente do turista aloprado que ilustra a metáfora acima, o ex-governador apenas parecia perdidão no exercício do cargo. Tudo mise-en-scène para fazer o povo amapaense ver nele um “coitadinho”, aquele sujeito boa-praça, parceirão e popular, que, mesmo desengonçado, gostava de se exibir saracoteando ao som dos tambores ora do marabaixo, ora do carimbó. Porque segundo gravações feitas pela Polícia Federal em 2005, com autorização da Justiça, Waldez conhecia sim os pormenores do esquema de corrupção arraigado na Sesa e controlado por seu ex-tesoureiro de campanha e assessor especial, Braz Martial Josafá.

Quadrilha evolui na gestão de pediatra

Após a “Operação Pororoca”, deflagrada em 4 de novembro de 2004, as investigações da Polícia Federal ganharam em intensidade em 2005. Principalmente com a posse de Uilton José Tavares, ocorrida em fevereiro daquele ano. Foi exatamente nos 19 meses de gestão de Uilton que o esquema de corrupção na Sesa, concebido na administração de Sebastião “Bala” Rocha e mantido à força de fórceps na mini-gestão de Cláudio Leão, ganhou volume dentro e fora do governo Waldez.

Em um ano e sete meses, Uilton Tavares comandou uma Secretaria da Saúde que só existia nas páginas do Diário Oficial do Estado. A verdadeira secretaria, segundo provas recolhidas pela Polícia Federal, estava nas mãos dos quadrilheiros controlados por Braz Martial Josafá, Gregório de Farias e Joca Grunho (este casado com Luzia Grunho, tia da então primeira-dama Marília Góes). Quando entregou o cetro ao sucessor, Uilton havia se notabilizado como o mais longevo dos secretários do primeiro mandato de Waldez Góes. Logo, pela avaliação da PF, seria temerário afirmar que o pediatra desconhecia os malfeitos cometidos em larga escala pelo bando.

Tanto que em meados de 2006, quando Uilton se preparava para deixar o cargo, agentes federais em atuação desde 2005, monitoraram várias reuniões entre ele e o já nomeado Abelardo da Silva Vaz. Para os policiais, os encontros serviam para transferência de informações sobre o funcionamento da gigantesca operação de desvios de recursos públicos.

Aliás, foi na “era Uilton Tavares” que José Gregório Ribeiro de Farias assumiu com ares plenipotenciários a chefia de gabinete da Sesa. Amplos poderes outorgados pelo “cabeça” do esquema, Braz Josafá, e avalizados, conforme relatórios da Polícia Federal, pelo Palácio do Setentrião, sede do governo estadual.

Segundo testemunhas, o poder exercido por Gregório também era lastreado pelo então senador Gilvam Borges (PMDB) desde os tempos em que Gregório exercia cargo de confiança na Fundação Nacional da Saúde no Amapá.

Conforme relatórios oficiais, a principal recomendação do alto escalão do governo ao futuro secretário referia-se à intocabilidade dos participantes da “máfia dos medicamentos”. Ou seja, Abelardo deveria exercer o secretariado no mesmo diapasão do antecessor, primando pela discrição na intrincada teia de corrupção montada nas entranhas da Sesa.

No entanto, a sofreguidão de Abelardo Vaz em direção ao butim surpreendeu até mesmo os mais experimentados facínoras da quadrilha e provocou graves reprimendas advindas do Palácio do Setentrião. Braz Josafá, que segundo a PF era o principal operador do esquema, diversas vezes advertiu Vaz sobre os riscos da voracidade desmedida. Essa avareza descomunal seria a ruína dele. (E.R.)

Mudança foi meramente ornamental

Reeleito em 2006, após uma campanha pontuada por lances escabrosos, Waldez Góes tratou de anunciar ampla reforma no secretariado “(...) para oxigenar a equipe e melhorar o desempenho da gestão”. Aconselhado por seu mais notório braço direito, Braz Josafá, Waldez começa a procurar um novo secretário da Saúde. Em 14 de fevereiro de 2007, empossa a médica Rosália Figueira que, apesar das informações correntes sobre o vasto esquema de desvios, manteve a mesma estrutura funcional na Sesa, inclusive deixando-se conduzir pelas orientações de José Gregório Ribeiro de Farias, chefe de gabinete herdado dos antecessores Uilton Tavares e Abelardo Vaz.

Tratava-se de mudança meramente ornamental. No exercício do cargo, Rosália não pôde implementar os próprios projetos. Obrigada a seguir uma cartilha pré-editada sobre as medidas que deveria anunciar para a Imprensa, resumiu a gestão ao gerenciamento de plantões médicos, a promover alterações internas nos hospitais da rede pública estadual e, menos de um mês após a posse, já estava envolvida no “escândalo do tomógrafo”, equipamento adquirido por quase R$ 1 milhão enquanto no mercado valia menos de R$ 650 mil. O Tribunal de Contas da União abortou a negociata e enquadrou a secretária.
Em nenhuma das inúmeras entrevistas que concedeu no pouco tempo em que ficou à frente da Sesa, Rosália Figueira revelou a intenção em desmontar a quadrilha que fraudava as licitações para a aquisição de medicamentos. Tampouco demonstrou repugnância ou indignação com o esquema de corrupção responsável pelo desvio de mais de R$ 100 milhões repassados ao governo do estado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). De acordo com a Polícia Federal, diferente de Uilton Tavares e Abelardo Vaz, Rosália aceitou sem espernear a humilhante condição de cenário. (E.R.)

Polícia Federal deflagra Operação Antídoto I

Em março de 2007, o então superintendente da Polícia Federal no Amapá, delegado Anderson Rui Oliveira, detinha informações suficientes para ordenar nova operação policial contra proeminentes do governo Waldez Góes. As provas obtidas por meio de escutas telefônicas, feitas com autorização judicial, e também resultantes de campanas realizadas no acompanhamento de secretários, servidores do alto escalão, empresários e políticos, descortinavam assombroso esquema de corrupção especializado em desviar dinheiro público que deveria ser utilizado em benefício da população carente.

Mas foi a briga entre sócios de uma empresa, que vendia medicamentos e equipamentos para a Sesa, o estopim ansiado por Rui Oliveira. Descontente por haver sido retirado da sociedade, um empresário (nome será revelado na próxima edição) descreveu em minudências o funcionamento da quadrilha, identificou os responsáveis, denunciou os demais participantes e esmiuçou o modus operandi dos "mafiosos".

A revelação bombástica provocou a prisão de 17 pessoas na manhã de 22 de março de 2007. As prisões aconteceram em Macapá e Tartarugalzinho, e nas cidades de Belém e Altamira (PA). Foram expedidos 19 mandados de prisão e 30 de busca e apreensão, 139 policiais federais entraram em ação nos dois estados. Estava deflagrada a “Operação Antídoto I”. (E.R.)
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A história da corrupção na SESA - Parte III A história da corrupção na SESA - Parte III Reviewed by Nezimar Borges/ Ana Maria Marat on sexta-feira, julho 11, 2014 Rating: 5

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