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Linchamentos

As netas das bruxas

Salem Witchcraft Trial
Num passado não muito distante a história nos remete a lembranças de mulheres sendo caçadas, torturadas física e psicologicamente, confessando o “crime de bruxaria” e sendo condenadas á morte na fogueira. Intolerância e fanatismo religioso foram ingredientes “mágicos” para perpetrar esta caçada, mas havia outros ingredientes temperando esta convulsão social, a sociedade patriarcal e o machismo eram sustentáculo da situação, as vitimas não eram mulheres à toa, mulheres que não se enquadravam no estereótipo da sociedade facilmente eram vistas com maus olhos, pela sociedade e igreja, ambas intensamente investindo na morte da religião da Deusa e qualquer resquício do matriarcado.

Não havia espaço no mundo para nenhuma mulher que não se submetesse, nem para nenhuma mulher que renegasse a fé que demonizaria qualquer outra fé, não havia espaço para nenhuma mulher que pudesse contar as novas gerações que nem sempre havia sido daquela forma…

A estimativa é de que entre 40 mil a 100 mil execuções foram realizadas entre os séculos XV e XVIII, na Europa e Colônias americanas. As acusações surgiam sempre de um suposto malefício, poderia ser uma doença, tanto de pessoas como de animais domésticos, problemas com a colheita. Normalmente as acusações eram de participação de Sabás ou prática de curandeirismo, acusações que bastavam de uma testemunha para proceder, ou seja, poderia ser o próprio acusador, que alvejava as acusadas dizendo que elas eram causadoras de infortúnios devido a suas artes mágicas.

As acusadas eram sempre alguém do convívio do denunciante, normalmente subordinadas, ou em posição social inferior, era muito comum serem alvejadas mulheres que não condiziam com a ordem social vigente: Mulheres que traíam seus maridos ou que não haviam se casado mesmo com idade avançada, curandeiras, viúvas, judias, alcoólatras…

Um dos episódios mais conhecidos e que ilustra muita bem como se dava a caça as bruxas e a inquisição, é das Bruxas de Salém, episódios que inclusive desencadeou uma histeria coletiva e prisões de muitas outras mulheres. Tudo começou com Tituba em 1691.

Tituba era escrava de Reverendo Samuel Parris, em Salém, Massachusetts. Vinda de Nova Espanha, Barbados, (podemos imaginar como o reverendo conseguiu trazê-la, não é mesmo?). Um dia na cozinha da casa do fazendeiro, a escrava falou a Elizabeth Parris, filha do Rev. Parris, Abigail Williams, sobrinha do mesmo e a terceira, Ann Putnam Jr., que era filha de um dos principais apoiadores do Rev. Parris, sobre adivinhação.

Dias depois Elizabeth começou a ter “comportamento estranho”, seguido o mesmo comportamento pelas outras meninas, (o comportamento pode ter sido pesadelos), as mesmas acusaram disseram que Tituba aparecia a elas (como um espírito), ascendendo assim a uma acusação de bruxaria.

Em 29 de fevereiro, 1692, um mandado de prisão foi emitido para Tituba em Salém , outros dois mandatos foram enviados para Sarah Good e Sarah Osborne.  As acusadas foram examinadas no dia seguinte na taverna de Nathaniel Ingersoll na vila de Salem por magistrados locais Jonathan Corwin e John Hathorne. Nesse exame, Tituba confessou, nomeando tanto Sarah Osborne e Sarah Good como bruxas e descrevendo seus movimentos espectrais, incluindo encontro com o diabo.

As mulheres denunciadas ao tribunal da inquisição eram torturadas, longamente torturadas até o momento em que, ser condenada a morte na fogueira por enforcamento, tornava se uma libertação, um sofrimento menor do que aquele a que estavam sendo submetidas.
Inquisição
Apesar do nome de Tituba e Sara Osborne terem desaparecido dos registros, e aparentemente alguém ter pagado para que fossem libertas, Sarah Good foi condenada a forca com muitas outras mulheres, no julgamento de Agosto, tais como: Bridget Bishop, Rebeca Nurse, Elizabeth How, Sara Wild e Susana Martin; No julgamento de Setembro outras mulheres foram executadas: Marta Cory, Alice Parker, Ann Pudeator, Mary Easty entre muitas outras.

A caça as bruxas é uma prática ainda, não temos mais tribunais da inquisição, mas existem outras formas de manter a velha condenação para mulheres que não se enquadram no estereótipo da sociedade, seja esteticamente ou moralmente falando, elas continuam sendo denunciadas e execradas pela mesma sociedade patriarcal.

Novas bruxas todos os dias são anunciadas, denunciadas, julgadas e condenadas, um misto de religião e machismo mantém viva uma história que muitos pensam estar morta e enterrada:

No ano de 2009, cinco mulheres foram despidas, espancadas e forçadas a comer excrementos humanos por moradores de um vilarejo na Índia após serem acusadas de bruxaria, as vítimas eram muçulmanas viúvas que foram chamadas de bruxas por um clérigo local no Estado de Jharkhand. Centenas de pessoas, em sua maioria mulheres, já teriam sido mortas no país por terem sido identificadas como bruxas por seus vizinhos. Algumas imagens deste linchamento foram divulgados em um video da BBC. (clique aqui para assistir)

No ano de 2011 o Ministério do Interior da Arábia Saudita informou uma mulher foi executada por praticar “bruxaria e feitiçaria”. Amina bint Abdul Halim bin Salem Nasser foi decapitada. Amina estava presa desde 2009, a acusação era de que ela convencia as pessoas que poderia curá-las em troca de dinheiro.

Nos países africanos, quando desastres atingem vilarejos, a busca por explicações acaba levando a bodes expiatórios – as chamadas bruxas.

As mulheres alvo das acusações de bruxaria, são:  As mulheres “excêntricas” ou “muito extrovertidas” e recorrentemente, muitas vezes idosas, normalmente viúvas, (Vulgo que não se encaixam na moral da sociedade local ou não interessam mais a sociedade) que são alvos fáceis e não protestam quando são expulsas de suas casas. Estas mulheres têm um destino, uma espécie de campo de concentração, onde são submetidas a um religioso (homem) que decide sobre sua purificação ou culpa e é o único lugar onde estão seguras de não serem mortas de formas brutais, tais como linchamento público. Um exemplo é o caso de Samata Abdulai, forçada a abandonar o seu povoado aos 82 anos após um de seus irmãos acusá-la pela morte de sua filha, supostamente causada por uma maldição lançada por Abdulai. Segundo a ActionAid, 70% das moradoras do campo de Kukuo foram acusadas de feitiçaria e expulsas após a morte dos seus maridos.


Na Tanzania em 2012. Quatro mulheres foram acusadas de bruxaria de pois que uma menina de 5 anos morreu atacada por hienas. Lá as hienas são ligadas a bruxaria pela cultura local, então a multidão saiu de casa em casa procurando quem tivesse como bicho de criação hienas. Supostamente encontraram 4 mulheres criando este tipo de animal e munidos de pedaços de pau, lincharam-nas. As mulheres tinham idade de 65, 62, 55 e 42 anos, após o linchamento atearam fogo em seus corpos.

No começo deste ano a mídia noticiou que uma mulher chamada Kepari Leniata , de 20 anos e mãe de um bebê, foi torturada e queimada viva (despida, encharcada com petróleo e queimada viva ante uma multidão) acusada de bruxaria, na Papua Nova Guiné. A morte desta mulher foi um assassinato brutal.
Kepari Leniata-killed
O povo de Papua Nova Guiné
Acusações de bruxaria ainda são usadas como desculpa para cometer crime de gênero, e neste local do mundo sequer existe uma legislação que defenda a mulher de… Morrer queimada vida… Acusada de bruxaria…

Acima citados, são alguns exemplos de que a acusação de bruxaria continua viva e perseguindo mulheres, esta acusação antiga nada mais é do que uma perseguição de gênero, mais uma das muitas faces da violência machista contra mulheres, não é à toa, que não se tem noticias de homens morrendo desta forma, não é mesmo?

O que chama atenção nestas mortes, além de que as acusadas são sempre mulheres, é que são mulheres que estão fora dos padrões que a sociedade espera. Qualquer sociedade com sua moral, julga e condena quem não lhe serve, seja por não estar submetida a esta moral, seja por ter se submetido à vida inteira, mas na velhice não ser mais necessária à manutenção da mesma. A caça as bruxas não cessará enquanto houver patriarcalismo.

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Linchamentos Linchamentos Reviewed by Nezimar Borges/ Ana Maria Marat on quarta-feira, maio 07, 2014 Rating: 5

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