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12 Anos de Escravidão

O que 12 anos representa para um século de racismo em Hollywood

Por CD VALLADA

O primeiro filme dirigido por um negro a ganhar o prêmio máximo mostra que, apesar da evidente mudança, o preconceito sempre existiu na Academia.

O primeiro filme dirigido por um negro a ganhar o prêmio máximo. foto/reprodução
Em 1915, D. W. Griffth, um dos pais da linguagem cinematográfica como a conhecemos hoje em dia, lançou O Nascimento de uma Nação (The Birth of a Nation). Contando a história da Guerra de Secessão pelo ponto de vista de duas famílias (uma pró-União e uma pró-Confederação), o longa-metragem foi duramente criticado por incitar o racismo e é até tido como parcialmente responsável pelo ressurgimento da Ku Klux Klan. Proibido em diversos lugares, todos os personagens negros que tinham contato com personagens femininas eram, na verdade, atores brancos com rostos pintados. Mesmo assim, o filme foi um estrondoso sucesso de bilheteria.

E agora, quase 100 anos depois, o cinema tem um dos capítulos mais interessantes na luta contra o preconceito racial.

Não há como dizer que o Oscar de Melhor Filme para 12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave) tenha sido artisticamente injusto. Embora, pessoalmente, eu prefira Gravidade (Gravity) e Ela (Her), a obra de Steve McQueen também é belíssima e extremamente bem realizada. Mas, da mesma forma, não há como negar que os fatores extras ajudaram, e muito, 12 Anos a ganhar o prêmio.

Como bem disse Ellen DeGeneres ao final de seu monólogo de abertura da cerimônia: “Possibilidade número um: 12 Anos de Escravidão ganha Melhor Filme. Possibilidade número 2: Vocês são todos racistas. E agora, por favor, recebam o nosso primeiro apresentador branco, Anne Hathaway”.
Mas a piada já havia sido levada a sério pelos votantes. Dois deles admitiram que nem viram o longa, pensando que poderia ser perturbador, mas que votaram nele mesmo assim, sentindo-se obrigados a fazê-lo por sua relevância social.

O racismo ainda é bem presente na sociedade, no mundo inteiro, e em Hollywood, por mais que seja um dos ambientes menos conservadores dos Estados Unidos, não é diferente. No Oscar, por exemplo, dos 5.765 votantes ativos da Academia, 94% são brancos. Contando todas as categorias, em 86 anos de premiação, apena 30 estatuetas foram para pessoas negras. Nas categorias de roteiro, o primeiro prêmio veio em 2009, com Geoffrey Flechter, por Preciosa (Precious). Steve McQueen foi apenas o terceiro indicado em Direção, e 12 Anos foi o primeiro filme dirigido por um negro a ganhar o prêmio máximo.

Hattie McDaniel foi a primeira a conseguir uma indicação ao Oscar, na 12ª edição, em 1940, por …E o Vento Levou (Gone with the Wind), a primeira a ser convidada para o evento, e a primeira a levar o prêmio. Porém, apesar do feito, ela teve que se sentar em um lugar separado dos brancos, durante a premiação. Mas se esse filme não era tão descaradamente racista quanto O Nascimento de uma Nação, tampouco era isento de preconceitos e estereótipos.

De lá pra cá, dezenas de artistas negros quebraram barreiras em Hollywood. Desde o icônico Sidney Poitier, passando por Morgan Freeman, James Earl Jones, Will Smith, Quincy Jones, Denzel Washington, Spike Lee, Halle Berry, Oprah Winfrey até Chiwetel Ejiofor, Lupita Nyong’o e Barkhad Abdi.
De lá pra cá, diversas obras cinematográficas trataram do racismo. Do divertido Banzé no Oeste (Blazing Saddles, 1974) ao violento A Outra História Americana (American History X, 1998). Do cultuado Faça a Coisa Certa (Do the Right Thing, 1989) ao controverso Histórias Cruzadas (The Help, 2011).

Mesmo assim, Hollywood nunca se mostrou muito a vontade com o assunto. E nem pode-se dizer que era só pela violência do tema, pois parecia mais aberta a histórias sobre o Holocausto do que sobre a escravidão, por exemplo. Talvez porque mostrar “olha como eles eram desumanos” e “olha como nós éramos desumanos” sejam duas coisas bastante diferentes.

Alguns diretores se aventuraram pelos dois campos. Steven Spielberg ganhou o Oscar com A Lista de Schindler (Schindler’s List, 1993) e depois fez Amistad (1997). Já Quentin Tarantino conseguiu o apoio do público para exterminar nazistas em Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009) e depois escravagistas em Django Livre (Django Unchained, 2012). Mas um ano depois da fantasiosa vingança tarantinesca, Hollywood se deparou com o realismo cruel de Steve McQueen.

A vitória de 12 Anos de Escravidão talvez não tenha o impacto social ideal. Talvez não consiga acabar com o preconceito, nem desfazer toda a injustiça racial já cometida. Mas era algo necessário. Era necessário que Hollywood olhasse para um dos capítulos mais absurdos de seu país (e do mundo) e admitisse, “foi horrível”, por mais óbvio que isso seja.

Quem sabe, em alguns anos, possamos ver o racismo como algo do passado e o Oscar coloque outras discriminações nos holofotes. Afinal, em 2005, quando O Segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain), um filme que fala sobre todos os tipos de racismo, poderia ter dado um grande passo contra a homofobia, Crash foi premiado.

Quem sabe, em mais alguns anos, considerem Brokeback Mountain apenas uma história de amor e 12 Anos de Escravidão apenas uma belíssima recriação histórica. Aí Gravidade, talvez, possa ganhar o Oscar.
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Sobre o autor: CD Vallada Formado em cinema pela FAAP, o paulistano CD Vallada foi colunista do Portal Higi e hoje traz suas análises da indústria cinematográfica ao El Hombre.
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12 Anos de Escravidão 12 Anos de Escravidão Reviewed by Nezimar Borges/ Ana Maria Marat on sexta-feira, março 07, 2014 Rating: 5

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