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Congresso reconhece golpe contra Jango

Congresso devolve simbolicamente mandato a Jango

Diário do Amapá



Em um plenário lotado com as principais autoridades da República, incluindo-se todos os comandantes militares, ato sepultou no Congresso a injustiça histórica. “Os povos que não recuperam a sua memória voltam a incorrer nos mesmos erros do passado”, discursou Randolfe

Por iniciativa os senadores Randolfe Rodrigues (Psol-AP) e Pedro Simon (PMDB-RS), o Congresso realizou na tarde da quarta-feira (18) uma sessão solene que, em resumo, desfaz uma injustiça histórica contra um dos mais legítimos presidentes da República eleitos pelo povo brasileiro, João Belchior Marques Goulart (1919-1976) – o herdeiro do trabalhismo getulista que passou à história como “Jango”, o carinhoso apelido cunhado pelos correligionários. Transcorridos quase 50 anos do golpe de Estado que, em abril de 1964, dava início a 21 anos de ditadura militar no Brasil, a memória do ex-presidente foi enfim honrada com a devolução simbólica de seu mandato, pelas mãos de seu filho, João Vicente Goulart.

A cerimônia de restituição da verdade foi realizada na presença das principais autoridades da República – inclusive as militares, e no mesmo plenário do Congresso que o depôs nas épocas sóbrias dos anos de chumbo: os comandantes do Exército, Enzo Martins Peri, da Aeronáutica, Juniti Saito, e da Marinha, Júlio Soares de Moura Neto, além do chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, José Carlos de Nardi. Sentados à Mesa Diretora, testemunharam a sessão solene histórica a presidente Dilma Rousseff ladeada por quatro peemedebistas – além de Simon, o vice-presidente da República, Michel Temer, e os presidentes do Senado, Renan Calheiros (AL), e Henrique Alves (RN). Completaram o grupo o deputado Alessandro Molon (PT-RJ), a cantora Fafá de Belém e, obviamente, João Vicente.

Lotado, o plenário do Senado precisou de estrutura extra para acomodar convidados, razão pela qual o cerimonial do Congresso teve de disponibilizar mobiliária extra para civis e militares das Forças Armadas – mais um sinal inequívoco de que o período militar que vitimou Jango está devidamente sepultado. Afinal, não há mais como esconder que João Goulart, ao procurar o apoio das forças legalistas do 3º Exército, no Rio Grande do Sul, ante à iminência de um golpe de Estado, foi mentirosamente acusado de ter abandonado o país, deixando “acéfala”, como foi dito na sessão do arbítrio, a Presidência da República – situação que, nos termos da Constituição à época, justificaria a deposição.

Sensível ao clima de reconciliação da solenidade, Randolfe exaltou o alto nível das discussões no ato histórico por ele e Simon articulado. “Exumar a verdade não é política para os mortos; é um compromisso perene dos que defendem em todas as épocas a vida, dos quem defendem em todas as épocas a liberdade”, declarou o senador, que ao final do discurso recebeu cumprimentos da presidente Dilma Rousseff. Da plateia do plenário, os comandantes das Forças acompanhavam atenciosamente, com disciplina militar, as falas proferidas da tribuna.

Ciente do simbolismo contido na presença dos comandantes militares, Randolfe fez questão de ressaltar que o ato, longe de ter caráter revanchista ou vingativo, tem em sua essência a clara reconciliação entre os atores do passado – muitos deles ainda em plena atividade, como o próprio Simon.  “As verdadeiras forças responsáveis pelo golpe de 1964 foram as forças conservadoras, as elites conservadoras nacionais aliadas ao capital estrangeiro, aliadas verdadeiramente aos interesses do imperialismo norte-americano. Em tom claro e alto, é bom que se diga quais foram as forças responsáveis”, ressaltou o senador, referindo-se ao governos totalitário dos Estados Unidos que, àquela época, valia-se de conexões ditatoriais para impor sua dominação mundo afora.

Emoção

Com arranjos de flores brancas e um telão com imagens históricas de Jango, das amenidades domésticas às situações da luta democrática, a sessão solene foi marcada por intervenções

Amigo e companheiro de atuação política, o senador Pedro Simon (PMDB-RS) fez o discurso de abertura da cerimônia, quando um verdadeiro resgate presencial da trajetória de Jango foi levado a todo o Brasil por meio dos diversos canais de comunicação do Senado. Randolfe, historiador por formação, recebia o reforço da testemunha ocular dos fatos.

Referindo-se à “beleza” do instante dias depois da morte do líder sul-africano Nelson Mandela (1918-2013), Simon colocou Jango no patamar das grandes figuras da humanidade. “Perdoem-me a emoção, mas é que eu vivi todos esses momentos. Vivi o momento de estar no aeroporto, surpreendido com aquela decisão [do golpe]”, recordou o fundador do antigo MDB, lembrando que João Goulart foi seguidas vezes eleito vice-presidente e presidente – em uma das eleições como vice (1956-1961), quando esses também eram votados, Jango recebeu mais votos do que o presidente Juscelino Kubitschek, seu companheiro de chapa. “Ele foi eleito praticamente três vezes presidente da República”.

Enternecido, e sob o olhar de emocionada cumplicidade da esposa, Verônica Goulart, João Vicente também foi à tribuna, onde leu homenagem ao pai escrita de próprio punho. E, por dentro da história como poucos, lembrou os pendores reformistas do ex-presidente criminosamente impedido de fazê-las. “Agradecemos aos senhores senadores Randolfe Rodrigues e Pedro Simon a iniciativa que levou à anulação da sessão de 2 de abril de 1964 para reparar, no dia de hoje, a injustiça praticada com a cassação de Jango. Mas para reparar também a triste mancha e o equívoco cometido pelo Parlamento brasileiro ao legalizar a ditadura e concordar implicitamente com a ruptura institucional da Pátria e a instalação do Estado de exceção”, discursou.

Oficializada a anulação da farsa histórica supracitada, os anais do Congresso passarão a registrar, para a posteridade, o presidente João Goulart como a principal vítima de um regime de terror que jamais deve voltar a viger no Brasil. A presença das demais autoridades da República à solenidade no Senado não deixam dúvidas quanto a isso: lá estavam os ministros Aloizio Mercadante (Educação), Garibaldi Alves Filho (Previdência), Ideli Salvatti (Relações Institucionais), Maria do Rosário (Direitos Humanos) e Marta Suplicy (Cultura), entre outros, além de deputados e senadores de diversos partidos, representantes da Ordem dos Advogados do Brasil e outros setores da sociedade civil.
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Congresso reconhece golpe contra Jango Congresso reconhece golpe contra Jango Reviewed by Nezimar Borges/ Ana Maria Marat on domingo, dezembro 22, 2013 Rating: 5

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