Header AD

O Brasil na encruzilhada

Caiu o nosso muro de Berlim. E agora?


por Luiz Carlos Azenha

Caiu o nosso muro de Berlim. Graças a uma dúzia de militantes do Movimento Passe Livre, o Brasil terá finalmente uma democracia com povo. Agora, sim, seremos capazes de tirar a Constituição de 1988 do papel. Demolir a democracia tutelada e o pacto de elites que, desde a redemocratização, sustenta nossa eterna modernização conservadora.

Vivemos, à nossa maneira, um Caracazo. Na Venezuela, foi a demolição do pacto segundo o qual os principais partidos — AD, Copei e União Republicana Democrática — se revezavam no poder. No Brasil, é o fim dos conchavos de bastidores entre PT, PMDB e PSDB, financiados pelo BNDES. Ou pelo menos o começo do fim. Tirar 20 centavos das tarifas de ônibus é apenas o primeiro passo. Faremos, a partir de agora, a democracia nas ruas.

É, de fato, um cenário bastante tentador. Democracia direta. Horizontal. Sem partidos ou lideranças personalistas. Submissão absoluta à causa.

Não há mais direita ou esquerda, escrevem no meu Facebook.

Mas, já avisaram a direita? Ela vai ceder seus privilégios assim, de mão beijada, alguns dos quais promovidos e defendidos com unhas e dentes pela coalizão cada vez mais conservadora liderada pelo PT?

Se olharmos para a História do Brasil, provavelmente não.

Ela ensina que sempre que o povo ensaiou algum protagonismo, no Brasil, foi engaiolado. Numa das vezes, por 21 anos.

Ah, mas o mundo mudou. Escapamos das hierarquias que nos foram impostas pelo fordismo. Estamos em rede. Nosso levante é tão silencioso quanto surpeendente.

O risco, qual é o risco?

Que a direita, enfim, de fato exista. Que se organize. Que pescando na ascensão social despolitizada promovida pelo lulismo bote na rua sua própria tropa de choque. Que explore o quadro político para nos impor um Berlusconi. Joaquim Barbosa, quem sabe, um Jânio Quadros do século 21, o Batman capaz de reeditar a vassourinha com suas asas faxineiras.

Direita e esquerda não nos representam, escrevem os que acham que as fronteiras foram abolidas e o imperialismo morreu. Ah, nacionalismo já era, é coisa da esquerda autoritária. Já era. Só falta avisar Washington.

Mas, qual é mesmo a conjuntura internacional? Capitalismo em crise. Disputa aguçada pelos recursos naturais (Líbia, Venezuela, Brasil). A América para os norte-americanos. Antigo, né? Mas real. Perguntem aos canhões da OTAN.

O neoliberalismo quer eliminar qualquer forma de organização social que não reconheça o caráter místico do mercado. Quer se apropriar do gás da Bolívia, do petróleo da Venezuela, do minério brasileiro (deste, já se apropriou). É a privataria 3.0, da água ao genoma. Organizada em torno de duas dúzias de corporações.

Como enfrentar essa conjuntura? Através dos tradicionais partidos de esquerda, dizem alguns. Não,
argumentam outros: eles estão falidos, foram cooptados e são apenas um empecilho à luta social.

Um bom debate. Desde que, enquanto estivermos distraídos nele, não nos seja imposto um Berlusconi.
_
O Brasil na encruzilhada O Brasil na encruzilhada Reviewed by Nezimar Borges/ Ana Maria Marat on quarta-feira, junho 19, 2013 Rating: 5

SE VOCÊ TEM ALGUMA NOTÍCIA PARA COMPARTILHAR, ENVIE PARA O WHATSAPP (96)98135-3197.


O Diário do Meio do Mundo é um site de jornalismo independente. Contribua para mantê-lo online. Obrigado! Se você não tem uma conta no PayPal, não há necessidade de se inscrever para doar ou assinar, você pode apenas usar qualquer cartão de crédito ou de débito. Para quem prefere fazer depósito em conta: Banco do Brasil; Agência: 2825-8; CC: 219.880-0.


Post AD